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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Princípio do Sentido


De manhã cedo, ao acordar, ninguém precisa que lhe ensinem a respirar. Mas quase todos precisam, em algum momento da vida, se perguntar: “Por que levantar hoje?” O que nos move não é só a sobrevivência biológica, mas a busca por algum sentido — uma razão que costure as horas e dê peso às escolhas. Esse impulso é tão fundamental que poderia ser chamado de um princípio: algo que antecede e organiza nossa experiência.

O filósofo Viktor Frankl, em Em busca de sentido, mostrou isso com clareza brutal: nos campos de concentração, aqueles que encontravam um “porquê” suportavam quase qualquer “como”. Para ele, o ser humano é, antes de tudo, um buscador de sentido — e quando essa busca falha, abre-se espaço para o vazio existencial.

Mas o sentido não é apenas individual. Na sociologia, Émile Durkheim já havia percebido que rituais, religiões e tradições fornecem à coletividade um horizonte de significados. É por isso que uma festa nacional ou até o campeonato de futebol podem dar à vida cotidiana um gosto de pertencimento. O sentido, nesse caso, é partilhado, costurado pelas narrativas coletivas que nos dizem: “você faz parte de algo maior”.

No entanto, o princípio do sentido no capitalismo contemporâneo se vê tensionado. O sistema oferece mil possibilidades de consumo, mas pouco responde às perguntas essenciais: quem somos? Para onde vamos? O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Busca do Sentido da Vida, lembra que o verdadeiro sentido não pode ser reduzido a conquistas externas ou acúmulo de bens; ele brota da capacidade de autoconhecimento e de ligação com o outro.

No dia a dia, esse princípio se manifesta em detalhes. Alguém que cozinha para a família encontra sentido no cuidado. Outro que se dedica ao trabalho voluntário vê ali um lugar para sua existência. Até o estudante que encara provas e trabalhos exaustivos o faz não só pela nota, mas porque imagina um futuro em que isso terá significado.

O risco maior talvez seja esquecer que o princípio do sentido é uma necessidade constante, e não algo dado de uma vez por todas. Sentido não é herança; é tarefa. Ele se renova, se transforma, às vezes se perde para depois ser redescoberto. Como dizia Camus, ao refletir sobre o absurdo, não há sentido pronto no universo, mas nós é que o inventamos a cada passo — e nesse ato criador reside a dignidade humana.

Assim, o princípio do sentido é a fonte invisível que nos sustenta: lastimamos, rejubilamos, amamos, sofremos, trabalhamos e descansamos, sempre tentando costurar uma narrativa que nos faça dizer, mesmo em silêncio: “valeu a pena ter levantado hoje”.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Fala porque pensa

Vamos falar sobre a origem do dizer e o silêncio que pensa

Já reparou que, às vezes, ficamos em silêncio, mas estamos cheios de ideias? Uma conversa pode estar parada por fora, mas por dentro mil pensamentos correm. Não estamos sempre dizendo tudo o que passa. Na verdade, quase nunca dizemos. O que chamamos de fala é só a ponta do iceberg do que se passa na mente.

E se for isso mesmo? Se a fala vier depois do pensamento — como uma tentativa de tradução imperfeita do que já se formou antes? Nesse ensaio, a proposta é considerar o contrário do que se costuma afirmar em certos círculos neurolinguísticos contemporâneos: não pensamos porque falamos, mas falamos porque pensamos.

O pensamento silencioso

Muitas de nossas decisões mais profundas são tomadas sem palavras. Você acorda e sabe que está triste — antes mesmo de conseguir explicar por quê. Há uma camada pré-verbal da consciência, cheia de imagens, sensações, intuições. A linguagem, nesse cenário, não é a origem do pensamento, mas um instrumento para compartilhá-lo com o outro (e, às vezes, consigo mesmo).

Descartes, no famoso penso, logo existo, não disse falo, logo penso. O pensamento é a base da subjetividade. É anterior à fala, mais amplo e mais sutil. O filósofo Henri Bergson defendia que a consciência excede a linguagem — que pensar é como nadar em um mar interno, enquanto falar é escolher uma garrafinha para conter o oceano.

Linguagem como casca do pensamento

Quantas vezes já sentimos algo que não conseguimos dizer? Ou percebemos que, ao tentar explicar uma ideia, ela se esvazia? Isso revela que a linguagem é um instrumento limitado frente à riqueza do pensamento. Falamos, sim, mas porque algo já foi fermentado antes. O pensamento é o forno; a fala, o pão assado.

O psicólogo suíço Jean Piaget argumentava que a linguagem é uma consequência do desenvolvimento cognitivo, e não sua causa. Para ele, a criança pensa antes de falar — e vai aprendendo a colocar em palavras o que já está se formando como raciocínio interno.

Quando a fala atrapalha

Num mundo ruidoso, talvez falar demais atrapalhe o pensamento. Distrações verbais, conversas vazias, impulsos de dizer antes de refletir — tudo isso pode desfigurar a verdadeira linha do pensamento. Um tuíte mal pensado, uma resposta impensada: palavras saem, mas não vieram do pensar, vieram da pressa.

Se fosse verdade que a fala cria o pensamento, todo mundo que fala muito pensaria melhor. Mas não é o que se vê. Pensar exige silêncio. A fala boa vem depois. Como o escritor que reescreve mil vezes antes de publicar. Como o sábio que ouve mais do que fala.

Pensar é mais que dizer

A mente humana é capaz de pensar com imagens, sons, metáforas internas, simulações motoras. Quando antecipamos um futuro possível, quando lembramos de um cheiro da infância, ou quando visualizamos um projeto de vida — nada disso precisa, necessariamente, da linguagem articulada.

A neurociência apoia essa pluralidade de formas de pensar. Antes da ativação das áreas verbais, há estímulos em regiões ligadas à emoção (amígdala), ao planejamento (córtex pré-frontal), à imaginação (hipocampo). Ou seja, o pensamento vem primeiro. A linguagem é um filtro — útil, poderoso, mas um filtro.

Fala é ponte, não semente

No fim das contas, falar porque se pensa é reconhecer que a fala não é a fonte da consciência, mas seu veículo. Pensar é existir num espaço íntimo, onde a palavra é convidada, não dona da casa. Só falamos porque temos algo a dizer. E esse algo nasce antes da fala.

Filosoficamente, talvez a fala seja apenas o momento em que o pensamento se arrisca no mundo. Nem todo pensamento vira palavra — e talvez ainda bem. Porque o silêncio também pensa. E, às vezes, é nele que se encontram as ideias mais verdadeiras.