O paradoxo que move
Vivemos
tempos em que se espera que tenhamos certezas sobre tudo. O que queremos ser, o
que pensamos sobre o mundo, de que lado estamos. E, no entanto, existe algo
mais comum – e mais honesto – do que a dúvida escondida dentro das nossas
convicções? A certeza dúbia é esse estado híbrido, quase poético, em que
seguimos agindo como se soubéssemos, mesmo quando o chão sob nossos pés range
como tábua velha.
Acordamos
com o despertador e temos certeza de que precisamos ir trabalhar, mas lá no
fundo a dúvida existe: “É isso mesmo que eu quero fazer da minha vida?”
Dizemos que amamos alguém, e amamos, sim, mas em certos silêncios ou
ausências nos perguntamos: “Será que isso é amor ou apego?”
Vamos
ao supermercado com a certeza de que não vamos comprar besteira, mas passamos
pelo corredor dos chocolates e algo dentro de nós diz: “Só esse hoje...”
Essa
é a matéria da qual somos feitos: um entrelaçado de segurança e hesitação. Não
somos máquinas que seguem comandos; somos seres que vivem entre apostas e
possibilidades. A certeza nunca é absoluta, e talvez isso seja bom. Porque é
esse grau de incerteza que nos permite mudar de ideia, pedir desculpas,
crescer, recomeçar.
Na
vida profissional, muitos dizem ter “certeza” de sua vocação. Mas quantas vezes
essa certeza é sustentada apenas pelo tempo investido, pelo medo da mudança ou
pelas expectativas alheias? Um médico que sempre sonhou ser músico. Uma
advogada que carrega cadernos cheios de poemas escondidos no fundo da gaveta. A
dúvida pode até incomodar, mas a certeza rígida demais sufoca.
Na
esfera pessoal, o mesmo se repete. Temos certeza de quem somos — até que uma
experiência nova, um livro lido por acaso, uma conversa no fim de tarde, muda o
jeito como vemos tudo. Somos seres em construção, mas fingimos já estar
prontos.
O
filósofo francês Edgar Morin defende a ideia da complexidade: a
vida não é feita de opostos puros, mas de misturas. A certeza dúbia é
isso — um retrato da complexidade humana. Não é contradição; é profundidade. E
é justamente nessa profundidade que mora a verdade mais viva.
Podemos
aprender a não ter medo da dúvida. Ter dúvidas não nos enfraquece; nos torna
mais atentos. A certeza dúbia nos impede de cair no fanatismo, nos obriga a
escutar o outro, e a escutar a nós mesmos de novo. Ela é incômoda, sim, mas é
também um convite à honestidade.
Agir
mesmo com dúvidas não é fraqueza, é coragem. É fazer o melhor possível com as
ferramentas de agora, sabendo que talvez amanhã sejamos outras pessoas. A vida
exige esse tipo de firmeza flexível, como o bambu que enverga sem quebrar.
No
fim, talvez a certeza dúbia não seja uma falha, mas uma virtude. Um sinal de
que estamos vivos, abertos, atentos. E que seguimos em frente — com o coração
firme e os olhos abertos.