Entre a Pedra e o Sinal
Há
um momento curioso em toda conversa humana: aquele instante em que precisamos
decidir se a frase deve ser acreditada ou interpretada. Quando alguém diz “estou
no fundo do poço”, ninguém oferece uma corda literal. Ainda assim, algo ali
é profundamente real. Esse pequeno desvio revela um dos jogos mais antigos da
linguagem: o vaivém entre o real e o figurado. Após uma conversa com um colega
fiquei a pensar sobre isto, ele bastante ansioso em busca de alternativas para
enfrentar os problemas naquele momento delicado, o que ele falou me fez
refletir a respeito do tanto que falamos com linguagem profunda carregada de
sentido emocional.
O
sentido real tranquiliza. Ele fixa o mundo, dá contornos, permite medir, pesar,
provar. Uma pedra é uma pedra. Um corpo ocupa espaço. O dia começa e termina.
Mas o ser humano nunca se contentou com isso. A realidade literal é
insuficiente para dar conta da experiência. Sofrimento, desejo, esperança e
tempo não cabem inteiros em palavras literais. É aí que o figurado entra como
contrabando existencial: ilegal, mas necessário.
Curiosamente,
chamamos de “figurado” aquilo que mais se aproxima do vivido. Ninguém sente a
dor como um dado técnico; sente como um peso, um vazio, um nó.
A linguagem figurada não embeleza a realidade — ela a torna suportável. Talvez
por isso as sociedades que tentam expulsar a metáfora acabem empobrecendo o
pensamento. Onde tudo precisa ser exato, quase nada é compreendido.
O
real, isolado, é mudo. Uma lágrima, em si, é apenas sal e água. Ela só fala
quando dizemos que carrega um mundo. O figurado, então, não é fuga do
real, mas sua tradução. É a tentativa de dar forma comunicável ao que, de outro
modo, permaneceria preso ao silêncio interno.
Mas
há um risco: quando esquecemos que o figurado aponta para algo, e não é o algo.
Quando metáforas viram dogmas, quando símbolos se solidificam, nasce a
confusão. Passamos a defender imagens como se fossem fatos e a negar fatos
porque ferem nossas imagens. Nesse ponto, o figurado deixa de iluminar o real e
passa a substituí-lo — e toda substituição excessiva gera cegueira.
Talvez
viver seja aprender a alternar. Saber quando a pedra é apenas pedra e quando
ela pesa como o mundo. Saber quando alguém pede um copo d’água e quando pede,
sem saber, um gesto de cuidado. A sabedoria não está em escolher entre o real e
o figurado, mas em reconhecer o momento exato de cada um.
No
fim, o humano é esse ser que anda com um pé no chão e outro no símbolo.
Demasiado real, torna-se bruto. Demasiado figurado, perde-se em névoa. Entre a
pedra e o sinal, entre o fato e a imagem, seguimos tentando dizer o indizível —
e chamamos isso, modestamente, de linguagem.