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domingo, 31 de agosto de 2025

Harmonia das Esferas

Às vezes, quando olhamos o céu numa noite clara, sentimos que há algo de silencioso e grandioso ali em cima. Não são só pontos brilhando: é como se houvesse uma ordem escondida no escuro. Os pitagóricos tinham um nome para isso — chamavam de harmonia das esferas. Acreditavam que os planetas, ao se moverem em suas órbitas, produziam uma música cósmica, uma melodia inaudível para nós, mas perceptível à alma.

Essa ideia nasceu do fascínio de Pitágoras com a música. Ele descobriu que cordas de diferentes comprimentos produziam sons harmônicos quando obedeciam a proporções simples: 2:1, 3:2, 4:3. A partir disso, ousou imaginar que o próprio universo era construído sobre proporções semelhantes. Se a música é matemática, por que não pensar que os astros também dançam conforme uma partitura invisível?

No cotidiano, essa visão ressoa de maneiras discretas. Quando admiramos a regularidade das fases da lua, quando nos encantamos com a precisão de um eclipse ou simplesmente nos surpreendemos com o pôr do sol que se repete todos os dias, estamos sentindo, ainda que sem nomear, essa harmonia. Há algo de musical em cada ciclo natural: no bater do coração, na cadência da respiração, no compasso do relógio biológico que nos faz despertar ou adormecer.

Mesmo sem acreditar literalmente que os planetas “cantam”, seguimos vivendo como se buscássemos essa música secreta. O ser humano tem fome de ritmo. Queremos que a vida “encaixe”, que os dias tenham melodia, que o trabalho e o descanso componham uma partitura equilibrada. Quando tudo parece fora do lugar, dizemos que “a vida está desafinada”.

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos reforça essa intuição pitagórica. Ele sugeria que a harmonia do universo não é apenas externa, mas também interna: nosso espírito sente prazer na ordem e se angustia diante do caos. Para ele, a vida ética e intelectual é aquela que se aproxima da música das esferas, ou seja, da harmonia que sustenta o cosmos. Seguindo essa linha, perceber padrões, buscar equilíbrio nas relações, organizar o tempo e cuidar da própria alma são maneiras de sintonizar nossa existência com essa melodia universal.

A harmonia das esferas, portanto, vai além da antiga cosmologia. É uma metáfora para a busca de equilíbrio pessoal e coletivo. Pitágoras nos lembra que o cosmos não é um amontoado caótico de corpos, mas um concerto. E Mário Ferreira dos Santos nos ensina que, ao reconhecer essa música invisível, aprendemos a viver com ritmo, beleza e sentido, tornando cada dia uma nota consciente dentro da partitura maior do universo.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Pele Politizada

Vivemos em um mundo onde a cor da pele pode determinar muitas coisas: desde as oportunidades que temos na vida até a forma como somos tratados pela sociedade. A expressão "pele politizada" pode soar complicada, mas, na verdade, ela está presente em diversos aspectos do nosso cotidiano. Vamos dar uma olhada e ver como essa politização se manifesta e o que alguns pensadores têm a dizer sobre o assunto.

No Cotidiano

Na Escola: Imagine uma sala de aula onde a diversidade é evidente. Estudantes de diferentes origens culturais trazem suas histórias e experiências únicas. No entanto, como mostram muitos estudos, alunos negros frequentemente enfrentam discriminação, seja através de menores expectativas por parte dos professores ou através de bullying por colegas. Isso afeta diretamente seu desempenho acadêmico e autoestima, politizando, assim, a experiência educacional baseada na cor da pele.

No Mercado de Trabalho: A discriminação racial também se estende ao mercado de trabalho. Pesquisas mostram que candidatos com nomes que soam "étnicos" têm menos chances de serem chamados para entrevistas, mesmo com qualificações iguais. Isso revela como a cor da pele e a percepção cultural podem influenciar a empregabilidade, perpetuando desigualdades socioeconômicas. Nomes como: Kwame, Shaniqua, Jamal, Maria, João, Fatima, Omar, Aisha entre outros, são nomes marcados pelo preconceito.

A discussão sobre nomes que soam "étnicos" refere-se à percepção e ao impacto que os nomes associados a certas origens culturais ou raciais podem ter na vida das pessoas, especialmente em contextos como o mercado de trabalho, a educação e as interações sociais. Nomes "étnicos" são aqueles que são facilmente identificáveis com uma determinada etnia, cultura ou região geográfica. Eles podem influenciar a forma como uma pessoa é percebida e tratada, muitas vezes de maneira injusta ou discriminatória.

Na Interação com a Polícia: A relação entre comunidades negras e a polícia tem sido um tema recorrente, especialmente nos Estados Unidos, mas também em muitos outros países, inclusive aqui mesmo no Brasil. Casos de violência policial contra negros geraram movimentos como o Black Lives Matter, que chama a atenção para a brutalidade e injustiça sistêmica. Essa situação exemplifica claramente a politização da pele, onde a cor pode ser um fator determinante na forma como a lei é aplicada.

Reflexões de Pensadores

Frantz Fanon: Um dos pensadores mais influentes sobre a questão da raça e identidade é Frantz Fanon. Em seu livro "Pele Negra, Máscaras Brancas", Fanon explora como o colonialismo impôs uma identidade negativa sobre os povos colonizados, levando-os a internalizar uma imagem inferior de si mesmos. Ele argumenta que a luta pela libertação e reconhecimento é, antes de tudo, uma luta pela descolonização da mente. Fanon mostra como a cor da pele é carregada de significados políticos e psicológicos que vão muito além da superfície.

Angela Davis: Outra figura importante é Angela Davis, uma acadêmica e ativista que tem falado extensivamente sobre a interseção entre raça, classe e gênero. Em seus trabalhos, Davis destaca como a luta pelos direitos civis é intrinsecamente ligada à luta por justiça econômica e igualdade de gênero. Para ela, a politização da pele é parte de uma luta mais ampla contra todas as formas de opressão.

No Dia a Dia

A politização da pele se manifesta de maneiras sutis e explícitas no cotidiano. Desde a escolha dos produtos de beleza até a representação na mídia, as nuances da cor da pele influenciam percepções e experiências. A moda, por exemplo, muitas vezes define padrões de beleza que excluem ou fetichizam características raciais específicas, levando a debates sobre apropriação cultural e inclusão.

A pele politizada não é apenas um conceito abstrato, mas uma realidade que afeta milhões de pessoas diariamente. Reflete a interseção entre identidade e política, onde a cor da pele pode influenciar profundamente as experiências de vida. Ao entender e discutir essas questões, como fazem pensadores como Fanon e Davis, podemos começar a desmantelar as estruturas de discriminação e avançar rumo a uma sociedade mais justa e igualitária.

As Mudanças Vem de Casa

A politização da pele é uma realidade que precisa ser enfrentada desde cedo, e isso começa em casa, com a educação familiar. É fundamental que os pais e responsáveis ensinem seus filhos a respeitar e valorizar todas as pessoas, independentemente da cor da pele. Conversas abertas sobre diversidade e inclusão devem ser uma parte regular da educação, explicando que as diferenças são algo a ser celebrado e não motivo de discriminação. Mostrar respeito pelos nomes "étnicos" e corrigir qualquer comportamento ou piada preconceituosa ajuda a formar uma base de empatia e compreensão. Expor as crianças a diversas culturas através de livros, filmes, músicas e eventos também contribui para normalizar a diversidade e quebrar estereótipos. 

Ensinar sobre a história e o significado dos nomes de diferentes culturas enriquece o entendimento e o respeito pela identidade alheia. Incentivar amizades diversas e participar de atividades educativas sobre diversidade são estratégias eficazes. É igualmente importante que os adultos reconheçam e desafiem seus próprios preconceitos, pois as crianças aprendem pelo exemplo, inclusive deve-se evitar piadas de mal gosto onde o preconceito esteja presente. Em suma, criar um ambiente familiar que valorize todas as identidades e culturas é essencial para preparar as crianças para um mundo mais justo e igualitário.

A politização da pele nos lembra que, embora a cor da nossa pele não deva definir nosso destino, ela continua a influenciar muitas esferas de nossas vidas. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para promover a mudança e a inclusão em todas as áreas da sociedade.