Na visão de Nietzsche
Há
momentos em que a luz ofusca mais do que ilumina. Nessas horas, não é incomum
preferirmos o recuo, a sombra, o silêncio de um quarto fechado — não como fuga,
mas como preparação. Friedrich Nietzsche, o filósofo que dançou com o
abismo e chamou a si mesmo de dinamite, enxergava as sombras não como o lado
obscuro da vida a ser evitado, mas como território fértil para a criação de
sentido.
Ele
dizia: “É necessário ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela
dançante.” O caos de que fala não é destruição gratuita, mas o tumulto
interno que sentimos quando questionamos valores herdados, quando perdemos uma
fé antiga, quando nos damos conta de que o mundo não tem garantias. Nesse caos,
há potência.
Imagine
alguém que perde o emprego. A sombra chega: insegurança, dúvidas, sensação de
fracasso. Mas se essa pessoa resistir ao impulso de fugir e, em vez disso,
olhar para o vazio, talvez descubra uma vocação esquecida, uma habilidade
desprezada, um novo caminho. A sombra revelou não um fim, mas um começo.
Nietzsche
não acreditava em verdades absolutas nem em morais fixas. Para ele, quem deseja
realmente viver deve estar disposto a se reinventar, e essa reinvenção
exige atravessar desertos internos. Nada de fórmulas prontas, nada de atalhos.
Como ele mesmo sugeriu: “Torna-te quem tu és.” Mas quem somos não está à
vista — está oculto, em parte, nas sombras que evitamos.
Então,
quando a escuridão aparecer — aquela tristeza sem nome, aquele desconforto
diante da rotina, aquele vazio no domingo à tarde — talvez não seja o caso de
acender todas as luzes. Talvez seja hora de mergulhar, como Nietzsche, e
escutar o que as sombras têm a dizer. Afinal, é do fundo da noite que surgem as
estrelas dançantes.

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