E os dramas individuais: o tumulto do eu nas dobras do social
Na
superfície calma dos encontros cotidianos, por trás dos sorrisos protocolares e
dos gestos repetidos, há uma torrente. Um redemoinho afetivo que mistura
desejo, medo, vaidade, ressentimento e uma necessidade desesperada de
reconhecimento. Chamamos isso de vida emocional, mas talvez fosse mais
honesto dizer vida em turbulência. As paixões, ao contrário do que
sugerem os manuais de autoajuda, não são forças sutis a serem domadas, mas
potências caóticas que configuram os dramas individuais e os lançam no teatro
social.
A
tradição filosófica moderna já apontava essa direção. Baruch Spinoza, em
sua Ética, defende que as paixões são afetos que nos capturam e nos
fazem agir sem clareza — somos passivos diante delas, perdemos a autonomia.
Para ele, o caminho da liberdade passa por compreender as paixões,
transformando-as em ações racionais. Mas como fazer isso num mundo em que o
social não apenas provoca essas paixões, mas as exalta?
Pierre
Bourdieu, com sua noção de habitus, oferece uma lente
sociológica para pensar essa captura. Segundo ele, nossos esquemas de percepção
e ação são moldados por experiências sociais internalizadas — o que desejamos,
tememos ou invejamos não é apenas nosso, é aprendido. Nossos dramas são individuais
apenas na forma; no conteúdo, são coletivos. O amor não é apenas uma entrega
íntima, é também o reflexo de normas de gênero, de status, de distinção. O
ciúme, por sua vez, não é apenas dor de perda, mas um grito pelo valor
simbólico do eu ameaçado.
O
filósofo romeno Emil Cioran vai mais fundo: “As paixões nos degradam
menos do que nos desorganizam”, escreve. Ele entende que o drama de viver não é
uma questão moral, mas existencial — somos expostos, expostos demais. As
paixões nos jogam contra nós mesmos, e o que chamamos de “drama pessoal” é, na
verdade, um colapso entre o que esperamos ser e o que de fato somos quando as
estruturas sociais se dissolvem em emoção.
Num
tempo de redes sociais, onde as emoções são capitalizadas em likes, e os dramas
individuais ganham visibilidade em forma de espetáculo, a velha oposição entre
o íntimo e o público colapsa. O indivíduo moderno vive não apenas suas paixões,
mas a performance delas. Judith Butler, com sua teoria da
performatividade, mostra que não há expressão pura do eu, apenas repetições de
gestos culturalmente reconhecíveis. O drama individual, então, é sempre
ensaiado num palco que já estava montado antes de nascermos.
O
que resta? Talvez uma ética da consciência afetiva. Não a negação das paixões,
mas a escuta das suas origens sociais, a tradução dos seus gritos em linguagem
crítica. Talvez não sejamos donos dos nossos dramas, mas podemos nos tornar
narradores mais lúcidos deles.
Como
disse Simone Weil: “O deserto é o único lugar em que podemos ver as
coisas como são.” Talvez seja hora de criar desertos interiores para ver, com
sobriedade, os rastros caóticos das paixões e dos dramas que, embora nossos,
são também espelhos do mundo.