Eu descobri que nem todo silêncio é fuga. Alguns são
projeto.
Há o silêncio que acontece quando falta palavra — esse é vazio.
E há o silêncio escolhido, quase arquitetado, como quem fecha uma janela para
organizar o ar do quarto.
Silêncio planejado não é ausência de som, é recusa de ruído
inútil. É quando eu decido não responder imediatamente, não opinar sobre tudo,
não preencher cada intervalo com explicações. Num mundo em que falar virou
reflexo condicionado, calar pode ser um gesto ativo, quase político.
No cotidiano ele aparece em formas discretas:
– não checar o celular assim que acorda;
– ouvir alguém até o fim sem preparar a réplica;
– deixar uma pergunta amadurecer antes de virar resposta.
Lembro do Rubem Alves, que dizia que a sabedoria
começa quando a boca aprende a escutar. Planejar o silêncio é criar espaço para
que algo nos atravesse — uma ideia, um incômodo, uma verdade que não grita, mas
insiste.
Talvez seja isso:
o silêncio planejado não serve para desaparecer do mundo,
mas para voltar a ele com menos ruído dentro de nós.