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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Memória com Significado


Eu já percebi que não guardo o que aconteceu. Guardo o que aquilo fez comigo.

Datas se apagam. Frases se embaralham. Rostos mudam. Mas certas experiências permanecem intactas, não porque foram precisas, e sim porque foram decisivas. A memória, no fundo, não é um arquivo — é uma curadoria.

Outro dia, tentando lembrar um momento específico da infância, percebi que só restava a sensação: um fim de tarde, uma luz amarela, um silêncio confortável. Não sei mais quem estava ali. Mas sei como eu me sentia. E talvez isso seja o que realmente importa.

No cotidiano, é assim:

– A gente esquece a conversa, mas lembra do constrangimento.

– Esquece o conselho, mas lembra da coragem que ele provocou.

– Esquece o nome, mas lembra do acolhimento.

A memória com significado não é fiel aos fatos. Ela é fiel à transformação.

Bergson já dizia que lembrar não é reproduzir o passado, é recriá-lo a partir do presente. Cada lembrança é um diálogo entre quem fomos e quem somos agora. Por isso, toda memória é um pouco invenção — e, ainda assim, profundamente verdadeira.

Eu começo a achar que o valor de uma lembrança não está em sua nitidez, mas em sua utilidade interior. Se ela me ajuda a compreender melhor, ela permanece. Se só me prende, ela vai se dissolvendo com delicadeza.

Memória com significado não pesa. Ela orienta.

É aquela lembrança que não nos puxa para trás, mas nos endireita por dentro. Que não nos paralisa, mas nos oferece uma espécie de chão invisível.

No fim, talvez a alma não seja feita de tudo o que viveu — mas apenas daquilo que soube transformar em sentido.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Imaginário dos Homens


Às vezes, enquanto caminho pela rua ainda meio sonolento, percebo que cada pessoa que cruza meu campo de visão carrega um mundo inteiro na cabeça — um mundo que ninguém vê, mas que ordena tudo o que ela faz. É curioso como essa dimensão interior, silenciosa e quase sempre invisível, molda nossos gestos, expectativas e até nossas frustrações. Outro dia, enquanto esperava o ônibus, fiquei observando um senhor que conversava sozinho. Talvez estivesse revisando mentalmente as tarefas do dia, talvez falando com memórias; quem sabe estava apenas arrumando uma desculpa para não se sentir tão só. Mas ali, diante de mim, estava a materialização do imaginário humano: essa linguagem secreta que cada um fala consigo mesmo.

O imaginário dos homens funciona como uma espécie de segundo ambiente. Não é apenas fantasia, mas a força estruturante que nos permite sustentar o real, reinterpretar o que vemos e domesticar aquilo que nos escapa. É nele que guardamos as imagens fundamentais da infância — as primeiras heroicidades, os primeiros medos — e também os modelos de vida que tentamos, às vezes desastradamente, imitar.

Penso sempre no quanto o imaginário é mais poderoso do que a realidade objetiva. Basta reparar no cotidiano: quantas relações terminam não pelo que de fato acontece, mas pelo que alguém imagina que aconteceu? Quantos projetos desmoronam porque o imaginário da derrota se impôs antes mesmo que o primeiro passo fosse dado? Quantos conflitos sociais não são alimentados por fantasias compartilhadas, por estereótipos endurecidos, por mitos que deveriam ter sido aposentados há décadas?

Para entender essa força, gosto de recorrer ao pensamento de Cornelius Castoriadis, um dos que mais profundamente refletiu sobre o imaginário. Ele afirma que o imaginário não é mero espelho da realidade, mas uma potência criadora que institui significações. Ou seja: não vemos o mundo tal como ele é, mas tal como somos capazes de imaginá-lo. Castoriadis dizia que toda sociedade se funda sobre um imaginário social — uma grande ficção organizada, compartilhada, que dá sentido ao que fazemos sem que percebamos.

Trazendo isso para a vida diária, fica evidente: somos educados para imaginar o sucesso como velocidade, o amor como perfeição, o corpo como máquina sempre em forma e a felicidade como uma linha reta. Nenhuma dessas imagens é real em si; são construções, idealizações, molduras para enquadrar nossa experiência. Mas o problema é que muitas vezes confundimos a moldura com o quadro. E sofrermos por não caber no desenho que nós mesmos reforçamos.

O imaginário dos homens é também o lugar onde escondemos nossas sombras. Criamos histórias internas para justificar medos, sustentamos autoimagens heroicas para evitar encarar fragilidades, inventamos antagonistas para dar coerência ao caos. No fundo, cada um de nós é um contador de histórias — histórias que acreditamos antes de qualquer outra coisa.

Castoriadis nos lembraria que, se o imaginário cria, ele também pode recriar. Ou seja: podemos revisitar nossas imagens internas, romper com algumas, reinventar outras. Isso é profundamente libertador. Talvez seja por isso que certas conversas — aquelas em que finalmente conseguimos dizer o que o imaginário escondia — têm o poder quase mágico de reorganizar a vida.

No fim das contas, o imaginário dos homens é a prova de que não vivemos apenas no mundo: vivemos também dentro de nós. E se esse espaço pode ser prisão, também pode ser possibilidade. A pergunta que fica é simples, mas desafiadora: quem está criando o imaginário que estamos vivendo? Somos nós — ou estamos apenas repetindo imagens que herdamos sem perceber?

Talvez a verdadeira maturidade seja justamente aprender a imaginar melhor. A cultivar imagens interiores que sustentem nossa humanidade, e não que nos reduzam a caricaturas de nós mesmos. Porque, no fundo, aquilo que imaginamos — de nós, dos outros, do futuro — é o que decide o tamanho da vida que conseguimos viver.