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domingo, 7 de dezembro de 2025

Autonomia Política

Entre o Mundo que Herdamos e o Mundo que Criamos

Às vezes, enquanto observo a rotina de uma cidade — alguém atravessando a rua com pressa, outro discutindo no ponto de ônibus, um grupo rindo de algo que ninguém mais entende — me pego pensando no quanto seguimos regras que não escolhemos. Horários impostos, códigos invisíveis, frases feitas, crenças repetidas. É curioso: vivemos como se tudo estivesse dado, como se as normas viessem encaixotadas de fábrica, prontas para o uso. Mas, no fundo, sabemos que não é bem assim. Há sempre uma fresta onde a dúvida entra, e com ela, a possibilidade do novo.

É aí que Castoriadis surge como um desses pensadores que não deixam a gente acomodar a cabeça no travesseiro da conformidade.

 

O Núcleo da Autonomia: Criar as Próprias Leis

Para Castoriadis, autonomia não é apenas liberdade de escolher entre opções já existentes. Isso seria, no máximo, consumo político. Autonomia, em sentido forte, é criar as próprias leis. É a capacidade de uma coletividade — e também de cada indivíduo — de questionar o que está posto, reconhecer que as instituições não são naturais, e decidir, deliberadamente, como deseja viver.

Ele diz:

“A sociedade é obra de imaginação.”

Ou seja, nada do que nos organiza — o Estado, a economia, a moral, o calendário, o casamento, o salário, a escola — vem da natureza. Foram criações humanas, sedimentadas no tempo, transformadas em tradição, sacralizadas como se fossem inevitáveis.

A autonomia, então, começa quando percebemos que tudo isso pode ser colocado em questão.

 

A Radicalidade de Castoriadis: O Rompimento com a Heteronomia

Se autonomia é criar as próprias leis, heteronomia é viver sob leis que vêm de fora — da tradição, dos deuses, dos especialistas, da “ciência”, do mercado, da burocracia. Castoriadis não gostava dessa postura confortável que diz: “as coisas são assim”. Ele entendia isso como uma forma de abdicar da imaginação política.

E ele provoca:

Quando aceitamos o mundo como dado, deixamos de ser criadores e nos tornamos apenas usuários.

É duro, porque no cotidiano essa heteronomia se mascara de eficiência: “é assim porque sempre foi”, “é assim porque todo mundo faz”, “é assim porque não tem alternativa”.

 

Autonomia Não é Individualismo

É importante frisar — e Castoriadis insistia nisso — que autonomia não é o indivíduo fazer o que quer. Autonomia política é sempre um projeto coletivo.

No trabalho, por exemplo, autonomia não é ignorar regras; é participar da criação delas.
Na democracia, autonomia não é votar a cada quatro anos; é deliberar continuamente sobre a vida comum.
Na vida cotidiana, autonomia não é ser “livre” no estilo consumidor; é compreender de onde vêm as normas que me atravessam e assumir responsabilidade sobre elas.

Autonomia não é capricho: é responsabilidade compartilhada.

 

O Espaço Político Como Espaço de Imaginação

Castoriadis costuma dizer que a democracia — a verdadeira, não a administrada — é o regime da sociedade que se reconhece como auto-instituinte. Isto é: que admite que o mundo político está sempre aberto. Que não existe última palavra. Que o futuro não é um cálculo, mas uma criação.

Em termos simples:
A autonomia só existe onde há imaginação viva.

E isso não é enfeite retórico. É a imaginação que permite dizer:
“E se não fosse assim?”
“E se fizéssemos diferente?”
“E se essa estrutura não for inevitável?”

A autonomia política se alimenta desse espanto infantil que os adultos tentam sufocar — o espanto de que tudo poderia ser de outro jeito.

 

Cotidiano: As Pequenas Portas da Autonomia

Ela aparece em detalhes:

  • Na reunião de condomínio em que alguém ousa propor uma forma mais justa de dividir custos.
  • No grupo de trabalho que questiona metas absurdas e sugere ritmos humanos.
  • Na escola que decide construir regras de convivência junto com os alunos.
  • No bairro que se organiza para discutir segurança, transporte, convivência — não esperando que um gestor distante resolva.

São pequenos exercícios de imaginação política. Pequenos, mas estruturantes.

 

Castoriadis para Comentar

Castoriadis nos lembra que autonomia não é um estado alcançado, mas uma prática permanente, sempre vulnerável, sempre exigente. Ele escreve:

“Uma sociedade autônoma é aquela que sabe que se criou e que pode se recriar.”

Essa frase é um convite — e também uma cobrança. Ela pede que abandonemos a passividade, que recusemos o discurso do inevitável, que entremos no perigoso território de assumir que somos responsáveis pelas instituições que nos moldam.

Autonomia é trabalho.
Autonomia é risco.
Autonomia é criação.

E, talvez por isso, seja tão rara — e tão necessária.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Imaginário dos Homens


Às vezes, enquanto caminho pela rua ainda meio sonolento, percebo que cada pessoa que cruza meu campo de visão carrega um mundo inteiro na cabeça — um mundo que ninguém vê, mas que ordena tudo o que ela faz. É curioso como essa dimensão interior, silenciosa e quase sempre invisível, molda nossos gestos, expectativas e até nossas frustrações. Outro dia, enquanto esperava o ônibus, fiquei observando um senhor que conversava sozinho. Talvez estivesse revisando mentalmente as tarefas do dia, talvez falando com memórias; quem sabe estava apenas arrumando uma desculpa para não se sentir tão só. Mas ali, diante de mim, estava a materialização do imaginário humano: essa linguagem secreta que cada um fala consigo mesmo.

O imaginário dos homens funciona como uma espécie de segundo ambiente. Não é apenas fantasia, mas a força estruturante que nos permite sustentar o real, reinterpretar o que vemos e domesticar aquilo que nos escapa. É nele que guardamos as imagens fundamentais da infância — as primeiras heroicidades, os primeiros medos — e também os modelos de vida que tentamos, às vezes desastradamente, imitar.

Penso sempre no quanto o imaginário é mais poderoso do que a realidade objetiva. Basta reparar no cotidiano: quantas relações terminam não pelo que de fato acontece, mas pelo que alguém imagina que aconteceu? Quantos projetos desmoronam porque o imaginário da derrota se impôs antes mesmo que o primeiro passo fosse dado? Quantos conflitos sociais não são alimentados por fantasias compartilhadas, por estereótipos endurecidos, por mitos que deveriam ter sido aposentados há décadas?

Para entender essa força, gosto de recorrer ao pensamento de Cornelius Castoriadis, um dos que mais profundamente refletiu sobre o imaginário. Ele afirma que o imaginário não é mero espelho da realidade, mas uma potência criadora que institui significações. Ou seja: não vemos o mundo tal como ele é, mas tal como somos capazes de imaginá-lo. Castoriadis dizia que toda sociedade se funda sobre um imaginário social — uma grande ficção organizada, compartilhada, que dá sentido ao que fazemos sem que percebamos.

Trazendo isso para a vida diária, fica evidente: somos educados para imaginar o sucesso como velocidade, o amor como perfeição, o corpo como máquina sempre em forma e a felicidade como uma linha reta. Nenhuma dessas imagens é real em si; são construções, idealizações, molduras para enquadrar nossa experiência. Mas o problema é que muitas vezes confundimos a moldura com o quadro. E sofrermos por não caber no desenho que nós mesmos reforçamos.

O imaginário dos homens é também o lugar onde escondemos nossas sombras. Criamos histórias internas para justificar medos, sustentamos autoimagens heroicas para evitar encarar fragilidades, inventamos antagonistas para dar coerência ao caos. No fundo, cada um de nós é um contador de histórias — histórias que acreditamos antes de qualquer outra coisa.

Castoriadis nos lembraria que, se o imaginário cria, ele também pode recriar. Ou seja: podemos revisitar nossas imagens internas, romper com algumas, reinventar outras. Isso é profundamente libertador. Talvez seja por isso que certas conversas — aquelas em que finalmente conseguimos dizer o que o imaginário escondia — têm o poder quase mágico de reorganizar a vida.

No fim das contas, o imaginário dos homens é a prova de que não vivemos apenas no mundo: vivemos também dentro de nós. E se esse espaço pode ser prisão, também pode ser possibilidade. A pergunta que fica é simples, mas desafiadora: quem está criando o imaginário que estamos vivendo? Somos nós — ou estamos apenas repetindo imagens que herdamos sem perceber?

Talvez a verdadeira maturidade seja justamente aprender a imaginar melhor. A cultivar imagens interiores que sustentem nossa humanidade, e não que nos reduzam a caricaturas de nós mesmos. Porque, no fundo, aquilo que imaginamos — de nós, dos outros, do futuro — é o que decide o tamanho da vida que conseguimos viver.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Humana Imbecilidade

Um ensaio filosófico breve, mas sem panos quentes

Há dias em que basta andar pela rua, abrir um aplicativo ou participar de uma reunião para sentir um certo desespero: como chegamos até aqui com tanto conhecimento acumulado e, ao mesmo tempo, tanta burrice em circulação? Essa contradição lateja no cotidiano. Parecemos capazes de construir foguetes, mas incapazes de atravessar uma conversa sem mal-entendidos grotescos, preconceitos rasos e decisões autodestrutivas. Há algo de estrutural na imbecilidade humana — e talvez ela seja menos exceção e mais sintoma.

Nietzsche já dava sinais dessa inquietação. Para ele, “o homem é o animal que se engana”, não só por ignorância, mas porque quer se enganar. A ilusão conforta mais do que a verdade. A burrice, nesse caso, não seria ausência de inteligência, mas uma inteligência desviada, posta a serviço do autoengano e da manutenção do ego. O idiota, então, é aquele que sabe, mas prefere não saber.

Cornelius Castoriadis vai além ao tratar da heteronomia, ou seja, da tendência humana de deixar que os outros — instituições, mitos, algoritmos — pensem por nós. A imbecilidade moderna se traveste de “opinião própria”, quando na verdade é apenas repetição maquinal de fórmulas prontas. Não é falta de acesso à informação — é a preguiça de pensar com autonomia, de elaborar, de duvidar.

Essa é a imbecilidade voluntária: um tipo de recusa ativa da complexidade. Um cansaço intelectual travestido de convicção. Guy Debord, ao falar da sociedade do espetáculo, já denunciava esse fenômeno: o mundo vira imagem, consumo e slogans, e pensar se torna um esforço inútil. A burrice, nesse cenário, deixa de ser falha e se torna escolha. E o mais assustador é que ela vem acompanhada de uma sensação de triunfo moral — como se o simplismo fosse virtude.

Mais grave ainda é a instrumentalização política da imbecilidade. Líderes e grupos de poder já entenderam há tempos que não precisam educar o povo, apenas alimentá-lo com versões digeríveis da realidade. Hannah Arendt, ao estudar os regimes totalitários, mostrou como a banalidade do mal não depende de monstros brilhantes, mas de engrenagens humanas medíocres, obedientes, que não pensam. A imbecilidade politizada se transforma em fervor, em doutrina, em patriotismo cego — e aí ela mata, persegue, elege.

Não se trata aqui de um desprezo elitista pela massa, mas de um alerta ético: a imbecilidade humana não é apenas cômica, ela é perigosa. Porque o imbecil, quando protegido por números, vira multidão. E multidões imbecis fazem história — ou melhor, tragédia.

Como resistir? Talvez retomando a humildade socrática: saber que não sabemos, duvidar com coragem e reaprender a pensar com os outros, e não apenas contra eles. Porque se a imbecilidade é uma tendência coletiva, a lucidez também pode ser. Mas exige trabalho. E, infelizmente, nem todo mundo está disposto.