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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Imaginário dos Homens


Às vezes, enquanto caminho pela rua ainda meio sonolento, percebo que cada pessoa que cruza meu campo de visão carrega um mundo inteiro na cabeça — um mundo que ninguém vê, mas que ordena tudo o que ela faz. É curioso como essa dimensão interior, silenciosa e quase sempre invisível, molda nossos gestos, expectativas e até nossas frustrações. Outro dia, enquanto esperava o ônibus, fiquei observando um senhor que conversava sozinho. Talvez estivesse revisando mentalmente as tarefas do dia, talvez falando com memórias; quem sabe estava apenas arrumando uma desculpa para não se sentir tão só. Mas ali, diante de mim, estava a materialização do imaginário humano: essa linguagem secreta que cada um fala consigo mesmo.

O imaginário dos homens funciona como uma espécie de segundo ambiente. Não é apenas fantasia, mas a força estruturante que nos permite sustentar o real, reinterpretar o que vemos e domesticar aquilo que nos escapa. É nele que guardamos as imagens fundamentais da infância — as primeiras heroicidades, os primeiros medos — e também os modelos de vida que tentamos, às vezes desastradamente, imitar.

Penso sempre no quanto o imaginário é mais poderoso do que a realidade objetiva. Basta reparar no cotidiano: quantas relações terminam não pelo que de fato acontece, mas pelo que alguém imagina que aconteceu? Quantos projetos desmoronam porque o imaginário da derrota se impôs antes mesmo que o primeiro passo fosse dado? Quantos conflitos sociais não são alimentados por fantasias compartilhadas, por estereótipos endurecidos, por mitos que deveriam ter sido aposentados há décadas?

Para entender essa força, gosto de recorrer ao pensamento de Cornelius Castoriadis, um dos que mais profundamente refletiu sobre o imaginário. Ele afirma que o imaginário não é mero espelho da realidade, mas uma potência criadora que institui significações. Ou seja: não vemos o mundo tal como ele é, mas tal como somos capazes de imaginá-lo. Castoriadis dizia que toda sociedade se funda sobre um imaginário social — uma grande ficção organizada, compartilhada, que dá sentido ao que fazemos sem que percebamos.

Trazendo isso para a vida diária, fica evidente: somos educados para imaginar o sucesso como velocidade, o amor como perfeição, o corpo como máquina sempre em forma e a felicidade como uma linha reta. Nenhuma dessas imagens é real em si; são construções, idealizações, molduras para enquadrar nossa experiência. Mas o problema é que muitas vezes confundimos a moldura com o quadro. E sofrermos por não caber no desenho que nós mesmos reforçamos.

O imaginário dos homens é também o lugar onde escondemos nossas sombras. Criamos histórias internas para justificar medos, sustentamos autoimagens heroicas para evitar encarar fragilidades, inventamos antagonistas para dar coerência ao caos. No fundo, cada um de nós é um contador de histórias — histórias que acreditamos antes de qualquer outra coisa.

Castoriadis nos lembraria que, se o imaginário cria, ele também pode recriar. Ou seja: podemos revisitar nossas imagens internas, romper com algumas, reinventar outras. Isso é profundamente libertador. Talvez seja por isso que certas conversas — aquelas em que finalmente conseguimos dizer o que o imaginário escondia — têm o poder quase mágico de reorganizar a vida.

No fim das contas, o imaginário dos homens é a prova de que não vivemos apenas no mundo: vivemos também dentro de nós. E se esse espaço pode ser prisão, também pode ser possibilidade. A pergunta que fica é simples, mas desafiadora: quem está criando o imaginário que estamos vivendo? Somos nós — ou estamos apenas repetindo imagens que herdamos sem perceber?

Talvez a verdadeira maturidade seja justamente aprender a imaginar melhor. A cultivar imagens interiores que sustentem nossa humanidade, e não que nos reduzam a caricaturas de nós mesmos. Porque, no fundo, aquilo que imaginamos — de nós, dos outros, do futuro — é o que decide o tamanho da vida que conseguimos viver.

sábado, 16 de agosto de 2025

Contracultura

O Inédito Viável em Chamas

Feche os olhos. Sinta o cheiro de tinta fresca na parede recém-pichada, ouça o som rachado de uma guitarra feita em casa, sinta a vibração de vozes que não pedem licença para existir. Contracultura é isso: uma recusa polida não serve; o que vale é o “não” dito com o corpo inteiro. Não é moda alternativa, não é só o figurino dos anos 60 ou 70 — é uma pulsação que surge sempre que alguém decide que não vai seguir a coreografia ensaiada pelo mundo.

Quando Theodore Roszak, em The Making of a Counter Culture, descreveu a explosão juvenil que misturava rock psicodélico, filosofia oriental e protestos contra a guerra, ele captou algo maior do que um momento histórico: captou o impulso de reinventar a percepção. Michel Foucault, com seu faro para as engrenagens invisíveis do poder, nos lembraria que esse gesto é sempre mais do que estética — é contra-coreografia, uma tentativa de mudar o passo antes que a música da ordem termine.

No Brasil, contracultura é tropicalismo misturando guitarra elétrica e berimbau, é o improviso que Hermano Vianna enxerga como traço identitário, é o espaço produzido pela troca humana que Milton Santos descreveu como antídoto contra a pasteurização do mundo. Renato Janine Ribeiro vai mais longe: resistir culturalmente é ato político e poético ao mesmo tempo.

Hoje, ela não mora só nos cartazes amassados de festivais independentes. Está nas bandas que gravam no quarto e lançam no Bandcamp, recusando o crivo de gravadoras; nos slams que ocupam praças e fazem do asfalto um palco; nos coletivos de mídia como a Mídia Ninja que narram os fatos a partir de uma lente própria. Está no agricultor que troca sementes crioulas para driblar a lógica industrial e no programador que cria software livre para que o conhecimento não tenha dono. Está na aldeia indígena que transmite, via celular, um ritual ancestral — e transforma o 4G em ponte cultural.

A contracultura digital é, talvez, sua encarnação mais intrigante: não foge da tecnologia, mas a subverte. Hackers que defendem criptografia como direito, artistas que usam inteligência artificial não para repetir estéticas pré-fabricadas, mas para questionar o próprio papel da máquina na criação.

Ela é líquida, difusa, atravessa o feed e o rio, o bit e o batuque. E, no entanto, conserva sua essência: recusar o script e escrever a própria cena, improvisando luz e cenário se for preciso. É, como dizia Paulo Freire, o “inédito viável”: aquilo que ainda não existe, mas pode nascer se alguém ousar imaginar — e tiver coragem de colocar as mãos, o corpo e o risco nesse nascimento.

No fundo, contracultura não é apenas contra algo. É a favor de um mundo que ainda não foi permitido, mas que insiste em aparecer pelas frestas. É um sopro de ar fresco em corredores abafados. É um riso fora de hora na reunião séria. É a flor que cresce na rachadura do concreto — e recusa ser arrancada.


quinta-feira, 5 de junho de 2025

Sujeito Normativo

 


O que há por trás de quem obedece (ou não)!

A gente passa a vida achando que está escolhendo. Desde cedo nos perguntam o que queremos ser quando crescer, como se a escolha fosse uma estrada aberta. Mas, se olharmos com mais atenção, muitas das nossas decisões já vieram meio prontas: o modo como nos vestimos, o jeito de falar, até a forma de amar — tudo parece já ter uma receita, mesmo antes de perguntarmos qual é o gosto.

Nesse cenário, surge uma figura discreta, mas poderosa: o sujeito normativo. Ele não é alguém específico, mas um tipo de presença que habita todos nós. É aquele que atua conforme as normas, internaliza as regras, se identifica com o que é esperado. Mas quem é esse sujeito, afinal? E, mais importante, ele é livre?

A construção do sujeito que se adapta

O sujeito normativo nasce de uma rede invisível de expectativas. Desde a infância, aprendemos o que é "certo", o que "pega bem", o que "deve ser feito". Somos guiados não por ordens diretas, mas por uma malha de sugestões sutis, recompensas emocionais e castigos simbólicos. A norma não grita, ela sussurra — e é exatamente aí que está sua força.

Michel Foucault nos ajuda a entender essa dimensão quando fala do poder disciplinar: o sujeito é produzido, ele não preexiste à norma. Ao se alinhar com os padrões, o sujeito normativo se realiza — e ao mesmo tempo, se limita. O curioso é que esse processo é quase sempre inconsciente: obedecemos sem saber que estamos obedecendo.

Louis Dumont: o sujeito entre o todo e o indivíduo

O antropólogo francês Louis Dumont nos ajuda a entender como as normas sociais moldam o próprio valor que damos ao sujeito. Em sua análise das culturas ocidentais e orientais, Dumont destaca a diferença entre duas formas de organização social: holismo e individualismo.

No holismo (mais comum em sociedades tradicionais, como na Índia), o indivíduo existe em função do todo — a coletividade, o grupo, a ordem social. Já no individualismo (mais típico do Ocidente moderno), o sujeito é concebido como autônomo, separado, dotado de direitos próprios.

Mas Dumont chama atenção para um paradoxo: mesmo onde o individualismo parece reinar, como nas democracias liberais, ele depende de um conjunto de normas culturais que moldam esse sujeito autônomo. Ou seja, até a ideia de “ser livre” já vem normatizada. O sujeito normativo moderno, portanto, não é menos normativo do que o tradicional — ele apenas internalizou novas formas de obediência, como a busca pela autenticidade, pela autorrealização, pelo sucesso pessoal.

Esse olhar antropológico revela que a norma muda de forma, mas nunca desaparece. O que chamamos de “escolha pessoal” frequentemente é apenas uma forma moderna de cumprir o que o grupo espera de nós.

O dilema entre pertencimento e autenticidade

Ser um sujeito normativo tem vantagens claras: ele se encaixa, circula com fluidez, é bem-visto. Mas há um preço. À medida que nos tornamos aquilo que esperam de nós, deixamos de escutar o que poderíamos ter sido. A norma, quando muito apertada, sufoca a singularidade. Quando vivemos apenas para cumprir o papel social que nos foi oferecido, nos tornamos personagens no teatro do previsível.

A filósofa Judith Butler acrescenta que as normas não apenas regulam o comportamento, mas criam a própria possibilidade de existência reconhecida. Só somos "alguém" se nos alinhamos minimamente ao que é considerado um "alguém possível". É um jogo de reconhecimento. E, às vezes, a margem entre ser reconhecido e ser livre é estreita.

A potência de desviar

Mas nem tudo está perdido. Há momentos em que o sujeito normativo tropeça — e é nesse tropeço que ele pode se reinventar. Quando uma pessoa diz “não” a um padrão que a oprime, não é apenas um ato de negação; é também uma criação. A transgressão, quando lúcida, abre espaço para novas formas de ser.

O filósofo brasileiro Vladimir Safatle nos convida a pensar que a transformação social exige esse gesto de ruptura, de recusa à normalização. O sujeito crítico, que tensiona as normas em vez de simplesmente segui-las, torna-se agente de mudança. Não para viver à margem por vaidade, mas para alargar as bordas do possível.

Entre a norma e o desejo

No fundo, todos nós vivemos esse equilíbrio instável entre seguir e reinventar. O sujeito normativo não é nosso inimigo — ele é parte de nós, aquela parte que busca acolhimento, sentido, pertencimento. Mas é preciso não esquecer da outra metade: o sujeito desejante, que sonha com o que ainda não tem nome.

Louis Dumont nos ajuda a entender que até o desejo de ser único pode ser, paradoxalmente, uma norma social. Talvez o desafio não seja abandonar a norma, mas dançar com ela. Saber quando ela nos serve e quando nos aprisiona. E, sobretudo, lembrar que viver de verdade é também inventar novas normas, feitas sob medida para aquilo que ainda não fomos — mas podemos vir a ser.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Natal de número 2023


O Natal, um momento festivo que se repete ano após ano, carrega consigo uma bagagem única e profunda que se desenrola através das eras. Ao considerar que estamos celebrando o Natal de número 2023, é impossível não mergulhar em uma reflexão filosófica sobre o significado desse evento que transcende o tempo. Desde o alegado nascimento de Jesus Cristo até os dias atuais, mais de dois milênios se passaram. Do ponto de vista filosófico, essa longa linha do tempo nos convida a contemplar a natureza efêmera da vida humana e as transformações que ocorreram ao longo dos séculos. Cada Natal é um elo nesse tecido da história, um momento em que o presente se conecta ao passado, e o futuro se anuncia no horizonte.

A tradição do Natal, inicialmente enraizada em significados religiosos, expandiu-se para abraçar diversas culturas, adquirindo novas camadas de simbolismo ao longo do tempo. É fascinante pensar nas várias interpretações e celebrações que ocorreram em diferentes épocas e em diversas partes do mundo. O Natal tornou-se um fenômeno cultural global, uma expressão da unidade na diversidade humana. A passagem dos anos também nos faz confrontar a mudança constante. A sociedade evoluiu, as ideias se transformaram, e as tradições natalinas adaptaram-se às nuances de cada era. Essa metamorfose contínua destaca a capacidade da humanidade de se reinventar, de reinterpretar símbolos e rituais, mantendo, ao mesmo tempo, uma ligação com as raízes históricas.

Num nível mais profundo, o Natal oferece uma oportunidade única para a reflexão sobre valores universais. A mensagem de amor, compaixão e solidariedade, muitas vezes associada a essa época do ano, transcende as barreiras temporais. É como se, a cada Natal, a humanidade fosse lembrada da importância de nutrir laços fraternos, independentemente das mudanças que o tempo traz consigo. Neste cenário, somos desafiados a pensar sobre o que permanece constante no Natal, além das decorações brilhantes e das festividades. Será que a essência da celebração é intemporal? Será que a alegria compartilhada e o espírito de generosidade são elementos que resistem ao teste do tempo?

Assim, ao desembrulhar os presentes e partilhar refeições festivas, podemos também desembrulhar as camadas da história que nos trouxeram até aqui. Cada vela acesa e cada canção natalina entoada são elos que se estendem além do presente, conectando-nos a um passado rico e apontando para um futuro repleto de possibilidades.

O Natal, visto através da lente da filosofia, revela-se como um artefato cultural extraordinário, uma tradição que não apenas sobrevive, mas floresce ao longo do tempo. Enquanto celebramos mais um Natal, é uma oportunidade para contemplar não apenas o ano que passou, mas os séculos que moldaram essa festividade especial. Então, ergamos nossas taças não apenas para o presente, mas também para os inúmeros Natais que vieram antes, tecendo assim a rica tapeçaria da experiência humana.

 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Transver, Reinventar e Desinventar, o que parecia bom agora não é bem assim

 

Uma imagem vale mais que mil palavras, com certeza já ouvimos esta frase muitas vezes, vamos pensar numa imagem que nos cria desconforto, de pronto lembro da imagem da beira da praia com lixo que veio com a maré do mar e do lixo que ficou deixado pela maré de gentes. É uma imagem desconfortável, nela estamos incluídos, nela estamos incluídos como responsáveis por todo o lixo que ali se encontra, de um jeito ou do outro.


Imagino que já leram algum poema de Manoel de Barros, ele inventou a palavra transver, esta palavra aparece num de seus poemas que quer dizer que o mundo é para ser visto com olhos, memória e imaginação, por esta razão fiz um convite inicial para pensar numa imagem desconfortável.

Manoel de Barros (1916-2014) foi um dos principais poetas contemporâneos. Autor de versos nos quais elementos regionais se conjugavam a considerações existenciais e uma espécie de surrealismo pantaneiro. Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, no dia 19 de dezembro de 1916

Manoel de Barros - Poeta

O poema onde aparece a palavra por ele inventada “transver” é “As Lições de Romulo Quiroga (um pintor boliviano), na pg. 75 do Livro Sobre Nada:

 “A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”

Ler poemas de Manoel de Barros é um convite para reflexão, seus poemas tratam de coisas cotidianas, tão próximas e familiares, ao mesmo tempo tem simplicidade e complexidade, ler é conviver com o paradoxal, tem coisas que foram inventadas para as pessoas viverem bem e com conforto, tem coisas que hoje não são tão boas assim, são coisas que são vistas, revistas e transvistas como coisas más, precisariam ser reinventadas ou desinventadas.

Em seu poema “Desobjeto”, podemos admirar sua perspicácia e imaginação, é na leitura do olhar que faz das coisas que estão por aqui e por aí como são ou pareçam ser.

Desobjeto
O menino que era esquerdo viu no meio do quintal um pente. O pente esta-va próximo de não ser mais um pente. Estaria mais perto de ser uma folha dentada. Dentada um tanto que já se havia incluído no chão que nem era uma pedra, um caramujo um sapo. Era alguma coisa nova o pente...Estava encostado às raízes de uma árvore e não servia mais nem para pentear ma-caco. O menino que era esquerdo tinha cacoete de poeta, justamente ele enxergara o pente naquele estado terminal. E o menino deu para imaginar que o pente, naquele estado, já estaria incorporado à natureza como um rio, um osso, um lagarto. Eu acho que as árvores colaboravam na solidão daquele pente. BARROS, Manoel de. Memórias inventadas. São Paulo: Planeta, 2003

Como Manoel de Barros já dizia “É preciso desinventar os objetos”. Dar outras funções que não as para quais foram inventadas até que virem ou-tras reinvenções.

A palavra Desinventar quer dizer tornar inexistente, desfazer algo que foi criado. O inventor desinventou o que havia criado, por temer que esse fosse utilizado para o mau, não faltam exemplos, temos o plástico, fusão nuclear, quem sabe a invenção do avião supersônico concorde?

Manoel de Barros em suas poesias brinca com as palavras para desinventar objetos, coisas, ideias e pensamentos. Ele constrói outras e novas formas de ver o mundo através da imaginação, recriando esta realidade que nem sempre nos serve ou é boa, como Manoel bem diria “Uma voz de fazer nascimentos”.

Hanna Arendt, da dizia “Vivemos em tempos sombrios”, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança", este é um fato que convivemos no dia a dia, as imagens presentes na mídia não nos deixam esquecer da gravidade presente, em nosso contexto inicialmente abordado a palavra desinventar não é querer negar o que existe e aquilo que vemos, na verdade, é tentar ressignificar como enxergamos os acontecimentos, principalmente porque nos faz despertar para a diversidade das pessoas e das coisas, e é este um jeito que mesmo em momentos difíceis e complicados, nosso deslumbramento se mantém vivo. Se existem histórias tão verdadeiras que parecem inventadas, o contrário também pode ser verdade, basta ter imaginação.

Chico Buarque através da música ”Apesar de Você” nos dá uma dica: “Você que inventou a tristeza / Ora, tenha a fineza / De desinventar”. Seria, então, a tristeza? A solidão? A esperança? O pesar? Talvez um objeto. A cama? O celular? O ônibus? A lâmpada?


Vide site com a música: https://www.youtube.com/watch?v=y6Vch5
XfLxM

Fico me perguntando se alguns progressos alcançados pelo homem não seria o caso de dar dois passos atrás, como por exemplo voltar a energia eólica no lugar do petróleo e coisas do gênero, quem sabe desinventar as matérias plásticas e a fusão nuclear, o que em princípio parecia um bem, já de algum tempo estamos enfrentando sérios problemas ecológicos, já falamos em colapso ambiental, e em consequência de tais invenções arquitetadas em nome do progresso, já sabemos que prejudicam o planeta, a verdade é que progresso a que estamos acostumados é o progresso a qualquer custo.

Se já sabemos o que esta dando errado, vamos fazer o certo, o que não significa seguir em frente sem ter de dar dois passos atrás, o façamos antes que seja tarde demais, rever posições para reinventar e até desinventar se for necessário, não há vergonha nisto.

Inventamos uma outra forma que é o reinventar, é reaproveitando alguma coisa que não tem mais uso na sua finalidade inicial, atualmente denominamos de reciclagem, no entanto no final das contas, muita coisa reciclada irá parar de qualquer forma poluindo a natureza, estamos apenas adiando, postergando sem dar cabo a causa, estamos agindo apenas na consequência, retardando a destruição, como por exemplo o plástico, ainda somos muito dependentes do polietileno.

O plástico vai do transporte aos serviços de alimentação, o plástico reciclado e é apenas quebrado em fragmentos cada vez menores, mas nunca completamente degradados. De uma forma ou de outra o plástico vai acabar em algum lixão ou em alguma praia disputando o espaço na areia ou no estômago de algum animal, vamos reinventar nossos hábitos e lutar contra esta poluição branca. O plástico começou a ser produzido nos anos 50, já imaginou quanto plástico está acumulado na natureza?

Outra invenção em nome do progresso e tem questão muito discutida por seus prós e contras é a fusão nuclear, talvez esta invenção além da exploração do petróleo e seus subprodutos, a fusão nuclear seja outro ponto discutidíssimo e tão maléfico quanto o outro, os prós, as vantagens é que a energia gerada pela fusão nuclear seria uma forma que garantiria segurança e limpeza ambiental. Isso porque, através da fissão nuclear produz energia principalmente através do urânio (um dos principais elementos radioativos). E no contraponto suas desvantagens conflitam com as tais vantagens, pois quando há acidentes tem sérias consequências, os resíduos gerados são de dificílima armazenagem e tratamento, é uma energia não renovável, porque o urânio deve ser extraído e não é regenerado. Sem falar na má utilização quando usam esta forma de energia na construção de bombas nucleares que funcionam por meio do processo de fissão com único objetivo de destruir a vida.

Esclarecendo: Fissão é o processo de forçar a divisão de um átomo para formar dois outros, mais leves. E Fusão é o processo de colidir com dois átomos propositalmente para formar um terceiro, mais pesado. A reação libera energia e, dependendo de quais forem os reagentes, um nêutron livre.

Então, o sentido de tranver pode se refletir no reinventar ou Desinventar, para inventar é preciso que abandonemos padrões de pensamento e passemos a pensar de modo diferente, isto também vale quando damos dois passos atrás, dar um passo só vai dar no mesmo, vamos dar dois passos, estamos vivendo problemas ambientais seríssimos, estamos vivendo na caixa do negacionismo coletivo, tudo em nome do tal progresso a qualquer custo, precisamos transver no sentido de enxergamos melhores alternativas e novas práticas, precisamos abandonar os padrões de pensamento que restringem nossa visão e imaginação, já sabemos o que está errado, vamos fazer o certo, vamos fazer a diferença, vamos transverberar! Vamos começar trazendo nossas compras nas caixas de papel, papelão, ou levando nossa sacola de tecido!