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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Reflexos de Si

Às vezes eu me reconheço mais no que não sou do que no que sou.

Vejo meu reflexo numa vitrine, num espelho de elevador, numa foto antiga — e sempre há um pequeno atraso entre a imagem e a sensação. A imagem afirma: sou eu. A sensação pergunta: será mesmo?

Os reflexos de si não vivem apenas no espelho. Estão nas pessoas que me irritam sem motivo claro. Nas que admiro sem entender por quê. Estão nas frases que me doem como se eu mesmo as tivesse escrito. Estão nos silêncios alheios que parecem meus.

Descobri, com certo desconforto, que quase tudo o que julgo no outro é um espelho mal polido de algo que ainda não aceitei em mim.

O reflexo não é cópia. É distorção com intimidade.

No cotidiano, isso aparece em gestos mínimos: quando me vejo paciente num amigo e percebo minha própria impaciência; quando admiro a coragem de alguém e sinto a minha própria covardia pedindo tradução; quando critico uma vaidade e reconheço a minha pedindo desculpa.

Carl Jung dizia que não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a escuridão. E talvez os reflexos de si sejam exatamente isso: pequenas lanternas apontadas para dentro por mãos que não são nossas.

O problema é que preferimos espelhos confortáveis. Queremos reflexos que confirmem, não que revelem. Queremos nos ver inteiros quando ainda estamos em construção.

Mas o reflexo verdadeiro sempre vem um pouco torto. Ele não mostra quem eu sou — mostra quem estou sendo.

E isso dói.

Porque o reflexo de si não acusa, mas também não protege. Ele apenas devolve. E o que ele devolve nem sempre combina com a história que conto sobre mim.

Talvez maturidade seja aprender a conversar com os próprios reflexos sem quebrar o espelho.

Aceitar que não somos unidade, mas composição. Que não somos rosto, mas coleção de ângulos. Que não somos identidade, mas tentativa.

No fim, percebo algo simples e estranho: eu não me encontro quando me afirmo — eu me encontro quando me reconheço nos lugares onde não queria estar.

E então entendo que os reflexos de si não servem para confirmar quem somos.
Servem para nos lembrar que ainda estamos nos tornando.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Imortalizado no Estatismo


Quantas vezes você já se viu parado diante de um retrato, perdido em pensamentos sobre a vida daquela pessoa congelada no tempo? É incrível como uma simples imagem pode capturar não apenas a aparência física, mas também a essência, os sonhos e até mesmo as lutas de alguém. No entanto, há algo mais profundo nesse fascínio pelo retrato além da mera curiosidade histórica ou estética. Trata-se de uma busca humana pela imortalidade.

Imagine isso: você está na sala de estar da sua avó, olhando as fotos antigas dispostas em uma estante empoeirada. Cada retrato conta uma história, uma parte do legado da sua família. Você vê o sorriso congelado no tempo do seu avô quando ele era jovem, os olhos cheios de esperança e coragem. E, de repente, você percebe que ele não está mais apenas ali naquela foto; ele está presente em suas memórias, nas histórias que sua família compartilha e nas lições que ele ensinou. O retrato não é apenas uma representação estática de uma pessoa, mas uma porta para um legado vivo.

E não são apenas os retratos de entes queridos que têm esse poder. Pense nos retratos de figuras históricas que adornam os corredores de museus e galerias de arte. Cada olhar, cada pose, conta uma história. Você pode sentir a presença deles, como se estivessem sussurrando segredos do passado diretamente para você. É como se, ao olhar para essas imagens, estivéssemos nos conectando com algo maior do que nós mesmos, uma corrente de eventos e emoções que atravessa gerações.

Mas essa busca pela imortalidade através do retrato não se limita apenas aos grandes nomes da história ou aos membros da família. Mesmo em nosso cotidiano, somos constantemente confrontados com a ideia de deixar nossa marca no mundo, de sermos lembrados mesmo depois que não estivermos mais aqui fisicamente. Quantas vezes você já tirou uma selfie e a compartilhou nas redes sociais, na esperança de deixar sua marca digital para as gerações futuras?

A verdade é que todos nós desejamos ser imortalizados de alguma forma. Seja através de um retrato pendurado na parede, de uma foto no Instagram ou das histórias contadas por aqueles que nos amam, buscamos deixar nossa marca no mundo. E talvez, apenas talvez, essa seja a nossa maneira de vencer a morte, de transcender nossa existência efêmera neste universo vasto e misterioso. Então, quando você passar por um retrato, pare por um momento. Contemple não apenas a imagem, mas a história por trás dela. E lembre-se de que, de uma forma ou de outra, todos nós buscamos a imortalidade.