Às vezes eu me reconheço mais no que não sou do que no que sou.
Vejo
meu reflexo numa vitrine, num espelho de elevador, numa foto antiga — e sempre
há um pequeno atraso entre a imagem e a sensação. A imagem afirma: sou eu.
A sensação pergunta: será mesmo?
Os
reflexos de si não vivem apenas no espelho. Estão nas pessoas que me irritam
sem motivo claro. Nas que admiro sem entender por quê. Estão nas frases que me
doem como se eu mesmo as tivesse escrito. Estão nos silêncios alheios que
parecem meus.
Descobri,
com certo desconforto, que quase tudo o que julgo no outro é um espelho mal
polido de algo que ainda não aceitei em mim.
O
reflexo não é cópia. É distorção com intimidade.
No
cotidiano, isso aparece em gestos mínimos: quando me vejo paciente num amigo e
percebo minha própria impaciência; quando admiro a coragem de alguém e sinto a
minha própria covardia pedindo tradução; quando critico uma vaidade e reconheço
a minha pedindo desculpa.
Carl
Jung
dizia que não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas tornando
consciente a escuridão. E talvez os reflexos de si sejam exatamente isso:
pequenas lanternas apontadas para dentro por mãos que não são nossas.
O
problema é que preferimos espelhos confortáveis. Queremos reflexos que
confirmem, não que revelem. Queremos nos ver inteiros quando ainda estamos em
construção.
Mas
o reflexo verdadeiro sempre vem um pouco torto. Ele não mostra quem eu sou —
mostra quem estou sendo.
E
isso dói.
Porque
o reflexo de si não acusa, mas também não protege. Ele apenas devolve. E o que
ele devolve nem sempre combina com a história que conto sobre mim.
Talvez
maturidade seja aprender a conversar com os próprios reflexos sem quebrar o
espelho.
Aceitar
que não somos unidade, mas composição. Que não somos rosto, mas coleção de
ângulos. Que não somos identidade, mas tentativa.
No
fim, percebo algo simples e estranho: eu não me encontro quando me afirmo — eu
me encontro quando me reconheço nos lugares onde não queria estar.
E
então entendo que os reflexos de si não servem para confirmar quem somos.
Servem para nos lembrar que ainda estamos nos tornando.