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sábado, 1 de novembro de 2025

Caricato e Burlesco

Espelhos Cômicos da Condição Humana

Há dias em que a vida parece uma peça mal ensaiada — o ônibus atrasa, o guarda de trânsito está mais filósofo que o motorista, e alguém na fila do banco resolve discutir a moral de Sócrates enquanto o caixa trava. Tudo vira um pequeno teatro onde o sério se disfarça de ridículo. E é aí que percebemos: o caricato e o burlesco não são apenas estilos artísticos — são maneiras de a existência se olhar no espelho e rir da própria tragédia.

Machado de Assis, com sua ironia cortante, compreendeu isso melhor que ninguém. Ele via o mundo como uma sucessão de disfarces, em que o homem tenta parecer grande, mas tropeça em suas vaidades pequenas. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, o autor não descreve um defunto ilustre, mas um defunto irônico, que se diverte ao narrar sua própria futilidade. É a caricatura da alma humana — exagerada nos contornos, mas exata na essência.

O caricato, no fundo, é uma forma de ampliar o detalhe até o grotesco para que o sentido apareça. Como quem aumenta o volume de uma voz baixa para ouvir o que ela realmente diz. Quando um personagem machadiano se vangloria de ser moral, já sabemos que ele vai escorregar no ridículo da hipocrisia. O riso, nesse caso, não é leveza — é revelação. Rimos porque reconhecemos ali, deformado, um pedaço de nós mesmos.

O burlesco, por sua vez, é a festa do despropósito. Ele desmonta o que é solene, desacata o sagrado, faz o herói parecer um bobo e o bobo parecer um sábio. É o mundo visto de cabeça para baixo, como na tradição carnavalesca que Mikhail Bakhtin estudou em Rabelais — e que Machado transformou em psicologia fina. No burlesco machadiano, não há gargalhada gratuita; há um riso que pensa. Um riso que desconfia das aparências e da pompa social, que desmonta o ego com elegância e crueldade.

Na vida cotidiana, essa lógica também se repete. A senhora que discute moda no ônibus como se fosse filosofia moral, o político que fala em ética com os bolsos estufados de escândalos, o intelectual que cita Kant e não paga o aluguel — todos são personagens dignos do universo burlesco. A realidade, afinal, é uma caricatura ambulante daquilo que pretendemos ser.

Machado diria, com aquele meio sorriso de ceticismo elegante, que o homem é um animal que se leva a sério demais. Por isso precisa do riso — não o riso fácil da piada, mas o riso filosófico da desilusão. O caricato e o burlesco, quando bem observados, são terapias da lucidez: desfazem a ilusão do sublime e nos devolvem à medida exata do humano — esse meio-termo entre a grandeza sonhada e a mediocridade vivida.

Em última instância, o caricato e o burlesco não ridicularizam o mundo — apenas o desnudam. E o que vemos, por baixo das máscaras, é o mesmo que Machado viu: uma humanidade ansiosa por parecer profunda, mas eternamente presa à superfície das suas vaidades. Rir disso, então, é a mais séria forma de pensar.

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