Com Žižek na fila do supermercado
Outro
dia, numa tarde qualquer, entrei no supermercado só para comprar pão e café.
Peguei uma fila relativamente curta, mas que, como sempre, andava lentamente.
Foi então que notei um senhor de jaqueta puída ao meu lado, reclamando baixinho
que “tudo hoje em dia é feito para a gente esperar”. Um instante depois,
percebi que aquele senhor era ninguém menos que Slavoj Žižek. Sim, ele
mesmo — fungando, ajeitando a camiseta amarrotada por dentro da calça e fazendo
gestos exagerados com as mãos, como se a fila inteira fosse uma provocação
metafísica.
“Veja”,
ele me diz, cutucando meu ombro com um entusiasmo levemente desesperado, “a
fila é o microcosmo da Teoria Crítica! Você acha que está esperando por pão…
mas, na verdade, é o sistema esperando por você.” Ele ri, e aquela risada meio
engasgada ecoa entre o corredor das bolachas e o freezer das massas congeladas.
Foi
ali, segurando um pacote de pão de forma, que a Teoria Crítica da Sociedade fez
todo sentido para mim. A Escola de Frankfurt inteira poderia ter sido citada
naquela fila. Horkheimer e Adorno diriam que o supermercado, com
sua música ambiente e seus corredores organizados para nos fazer gastar mais do
que precisamos, é um templo da cultura transformada em mercadoria. A razão
instrumental está presente até nos carrinhos com rodinhas que sempre emperram —
não por mágica, mas porque a frustração também pode ser lucrativa.
Marcuse,
por sua vez, teria olhado para aquela prateleira infinita de produtos idênticos
e comentado que a “liberdade de escolha” é só outra forma de
unidimensionalidade. Você acha que escolhe entre dez marcas de café, mas todas
carregam o mesmo imperativo: consumir para existir. É a ilusão confortável de
que decidir entre embalagens diferentes é ato de autonomia.
Žižek,
ainda do meu lado, balança a cabeça como quem lê meus pensamentos. “Você pensa
que está aqui por necessidade”, ele continua, “mas o sistema quer que você
transforme até a fome num gesto político involuntário. É como se cada compra
reafirmasse a ordem simbólica!” Ele abre os braços, quase batendo numa senhora
que empurrava um carrinho cheio de detergentes.
Enquanto
isso, Habermas provavelmente tentaria salvar alguma esperança. Talvez
dissesse que, se pelo menos conversássemos realmente na fila — e não apenas
murmurássemos reclamações —, poderíamos construir um pequeno espaço de
racionalidade comunicativa. Mas basta olhar ao redor: metade das pessoas na
fila está presa ao celular, deslizando o dedo por notícias ruins embaladas como
entretenimento urgente. A comunicação virou ruído; o consenso, performance.
E
é isso que a Teoria Crítica tenta nos mostrar: que a sociedade moderna cria
mecanismos tão finos de controle que eles entram em nós sem pedir licença. O
tempo que passamos na fila, a ansiedade diante do relógio, a necessidade de
“ganhar tempo” comprando café para trabalhar mais — tudo isso compõe a paisagem
onde a liberdade se confunde com hábito.
“Mas
sabe o mais engraçado?”, Žižek me diz, agora sussurrando, como se fosse revelar
um segredo. “Mesmo quando você percebe tudo isso, você ainda compra o pão. A
crítica não te liberta magicamente. Ela só mostra o quão preso você está — e
isso já é algo.”
E
naquele instante percebo que a verdadeira força da Teoria Crítica não está em
nos transformar em ascetas radicais que abandonam o supermercado, mas em nos
lembrar que nada do que parece natural é realmente inevitável. Que aquilo que
chamamos de normalidade — correria, consumo, distração, produtividade — é uma
construção histórica. E o que é construído pode ser reconstruído.
Quando
finalmente chega minha vez no caixa, Žižek me dá um tapinha no braço e diz: “A
liberdade está nas pequenas rachaduras da rotina. Preste atenção nelas.” Depois
atravessa a porta automática, que abre com um sopro gelado, como se o mundo
estivesse suspenso por um segundo.
Saio
também, segurando meu pacote de pão, e percebo que talvez a crítica comece
exatamente assim: numa fila lenta, num gesto banal, numa consciência que
desperta por alguns instantes. Uma espécie de fresta que o cotidiano, sem
querer, deixa escapar.
E
é nessas pequenas brechas — mesmo que rapidamente fechadas — que ainda podemos
respirar.
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