Às vezes, tudo começa com uma bobeira: estou andando pela rua e, no muro gasto de um prédio antigo, vejo dois olhos, um nariz torto e uma boca meio debochada. É só um pedaço de tinta descascada, mas juro que ele me encara como quem diz: “coragem, meu amigo, o dia ainda nem começou”. E eu sigo, rindo sozinho, meio sem saber se estou ficando maluco ou apenas humano demais.
A
pareidolia — esse hábito curioso de reconhecer rostos, figuras e sentidos onde
só existe acaso — talvez seja uma das provas silenciosas de que nossa mente não
aguenta o vazio. Precisamos preencher. Precisamos nomear. Precisamos olhar para
o mundo como se ele nos devolvesse o olhar. É como se a realidade fosse um
enorme espelho fosco e, na névoa, cada um desenha o que precisa ver.
E
no cotidiano isso aparece sem pedir licença. O casaco jogado na cadeira vira
alguém esperando seu retorno. O formato da nuvem decide imitar um cachorro. O
som distante do ônibus que freia parece um suspiro cansado. Até o silêncio, às
vezes, ganha uma expressão — quase sempre a nossa própria.
O
filósofo Gaston Bachelard diria que a imaginação é uma “potência da
alma”, não um defeito. Para ele, a mente humana se expande criando imagens que
reorganizam o mundo. A pareidolia, vista por esse ângulo, deixa de ser um
truque do cérebro e vira uma espécie de poesia automática: aquilo que
enxergamos fora revela o que fermenta dentro.
E
o mais curioso é que, ao projetarmos formas no mundo, acabamos deixando pistas
daquilo que tem nos habitado. Quem anda angustiado encontra rostos apreensivos
até no azulejo do banheiro. Quem está apaixonado descobre corações até no
formato do vapor da chaleira. Quem está só vê companhia em sombras, manchas,
vapores. A pareidolia é quase um diagnóstico simbólico, só que disfarçado de
brincadeira.
No
fundo, cada pequeno rosto que vemos no mundo — seja numa pedra, num tronco ou
no céu — é uma espécie de lembrança suave de que não caminhamos tão sozinhos
assim. Ou, talvez, de que carregamos companhia suficiente dentro de nós para
povoar o universo inteiro.
E
quando percebo um rosto aparecendo em algum canto do dia, não tento mais
corrigir. Não digo: “é só uma mancha”. Prefiro aceitar. Porque talvez sejam
justamente essas ilusões voluntárias que nos mantêm próximos do mistério. A
realidade é rígida demais para suportar sempre a verdade nua — e, às vezes,
tudo o que precisamos é um sorriso torto pintado no muro para lembrar que
existe beleza quando a imaginação resolve brincar.
E,
afinal, se o mundo insiste em nos olhar de volta, quem sou eu para negar?
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