A sala de quem comanda
Outro
dia, enquanto eu esperava no saguão de um prédio empresarial — daqueles com
cheiro de carpete novo e café requentado — percebi algo curioso: há uma
coreografia invisível entre quem entra e quem manda. O segurança aperta o
crachá no peito, o estagiário olha o chão, o executivo fala alto ao telefone,
como se o tom de voz também fosse um crachá simbólico. É ali, naquele pequeno
teatro cotidiano, que a noção de classe dominante se revela — não apenas
como um grupo de poder econômico, mas como uma cultura inteira que se expressa
nos gestos, nas palavras, nas certezas.
Marx,
claro, foi quem escancarou o termo: a classe dominante é aquela que
controla os meios de produção e, por consequência, as ideias que circulam. “As
ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”, ele
escreveu. Ou seja, não basta deter o capital — é preciso também administrar o
imaginário. Não é só o dinheiro que compra o luxo; compra-se também o discurso,
a moral, o gosto e até o senso de justiça.
Pierre
Bourdieu aprofunda essa visão ao mostrar que a dominação não
se mantém apenas pela força, mas pela violência simbólica. Ela acontece
quando os dominados aceitam, quase sem perceber, o jogo do dominador. É quando
o trabalhador acredita que não lê porque “não nasceu pra isso”, ou quando a
estudante pobre sente vergonha do próprio sotaque na universidade. O poder mais
eficaz é aquele que não precisa se impor: ele se infiltra, educa o olhar e
define o que é “natural”.
Max
Weber, por sua vez, lembra que a dominação pode se
legitimar de modos distintos — pela tradição, pelo carisma ou pela legalidade
racional. Hoje, o poder se legitima sobretudo pelo discurso da competência:
quem domina não se apresenta mais como “rico” ou “herdeiro”, mas como
“eficiente”, “empreendedor”, “inovador”. A ideologia da meritocracia é o novo
terno bem passado da classe dominante: limpa, elegante, e perfeitamente
ajustada para esconder a origem das desigualdades.
Mas
o palco da dominação mudou de cenário. Se antes ela se manifestava nas fábricas
e nos escritórios, hoje ela se exibe nas redes sociais. O feed se tornou
o novo saguão de poder — um espaço onde se performa sucesso, felicidade e
autoridade. A classe dominante aprendeu a usar o algoritmo como ferramenta de
distinção: quanto mais visibilidade, mais poder simbólico. É uma espécie de Bourdieu
digital, em que o capital cultural se mede por seguidores, e o capital
econômico se mascara de estilo de vida.
O
curioso é que muitos dos que assistem a esse espetáculo virtual acreditam estar
participando dele. Curtir é o novo ajoelhar; compartilhar, o novo acenar
respeitoso. As redes, que prometiam democratizar a voz, acabaram amplificando o
poder de quem já tinha palco. O discurso do “todos podem” esconde o velho
mecanismo: só fala quem é ouvido, e só é ouvido quem se encaixa no padrão
dominante. A dominação, agora, veste filtros e hashtags.
E
mesmo diante dessa estrutura, a maioria de nós sonha em subir de classe — e
raramente em mudar o jogo. Sonhamos em ter um cargo de chefia, não em
questionar o porquê de haver tantos chefiados. Essa é talvez a vitória mais
sutil da classe dominante: transformar o desejo de liberdade em desejo de
ascensão.
No
fundo, a dominação não é apenas um fato econômico, mas um fenômeno espiritual,
como sugeriria N. Sri Ram: ela nasce de uma consciência que se crê
separada. Enquanto houver quem se perceba como superior por natureza ou
posição, haverá dominação. O desafio não é abolir as classes apenas na
economia, mas também na percepção — perceber o outro não como degrau, mas como
espelho.
E,
voltando ao saguão do prédio, talvez seja ali, nas pequenas reverências do
cotidiano — e agora também nos silêncios virtuais — que a dominação se
sustenta. O crachá, o tom de voz, o número de curtidas, o medo de não
“pertencer” — tudo isso compõe a liturgia do poder. A classe dominante não mora
apenas nas coberturas: ela mora nas cabeças e nos algoritmos.
No
Brasil, esse fenômeno assume cores próprias. A elite econômica, herdeira de uma
estrutura colonial e patrimonialista, mantém seu poder não apenas pelo capital
acumulado, mas pela influência sobre o discurso público — especialmente via
mídia e política. Como diria Jessé Souza, em A elite do atraso,
há um “consórcio simbólico” entre a elite financeira, a elite jurídica e os
meios de comunicação, que naturaliza a desigualdade e transforma privilégios em
virtudes. A classe dominante brasileira é mestre em reembalar o velho
autoritarismo com vocabulário moderno: fala em “liberdade de mercado” enquanto
mantém o povo cativo na dependência e no medo.
Vivemos,
assim, uma forma tropical de dominação simbólica, em que o poder se mascara de
competência e o privilégio se disfarça de mérito. O resultado é um país que
acredita estar se modernizando, enquanto repete as hierarquias de sempre.
Talvez
a verdadeira revolução comece quando, ao atravessar o saguão — físico, digital
ou institucional —, deixarmos de abaixar os olhos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário