Espelhos Cômicos da Condição Humana
Há
dias em que a vida parece uma peça mal ensaiada — o ônibus atrasa, o guarda de
trânsito está mais filósofo que o motorista, e alguém na fila do banco resolve
discutir a moral de Sócrates enquanto o caixa trava. Tudo vira um pequeno
teatro onde o sério se disfarça de ridículo. E é aí que percebemos: o caricato
e o burlesco não são apenas estilos artísticos — são maneiras de a existência
se olhar no espelho e rir da própria tragédia.
Machado
de Assis, com sua ironia cortante, compreendeu isso melhor que
ninguém. Ele via o mundo como uma sucessão de disfarces, em que o homem tenta
parecer grande, mas tropeça em suas vaidades pequenas. Em Memórias Póstumas
de Brás Cubas, por exemplo, o autor não descreve um defunto ilustre, mas um
defunto irônico, que se diverte ao narrar sua própria futilidade. É a
caricatura da alma humana — exagerada nos contornos, mas exata na essência.
O
caricato, no fundo, é uma forma de ampliar o detalhe até o grotesco para que o
sentido apareça. Como quem aumenta o volume de uma voz baixa para ouvir o que
ela realmente diz. Quando um personagem machadiano se vangloria de ser moral,
já sabemos que ele vai escorregar no ridículo da hipocrisia. O riso, nesse
caso, não é leveza — é revelação. Rimos porque reconhecemos ali, deformado, um
pedaço de nós mesmos.
O
burlesco, por sua vez, é a festa do despropósito. Ele desmonta o que é solene,
desacata o sagrado, faz o herói parecer um bobo e o bobo parecer um sábio. É o
mundo visto de cabeça para baixo, como na tradição carnavalesca que Mikhail
Bakhtin estudou em Rabelais — e que Machado transformou em psicologia fina. No
burlesco machadiano, não há gargalhada gratuita; há um riso que pensa. Um riso
que desconfia das aparências e da pompa social, que desmonta o ego com
elegância e crueldade.
Na
vida cotidiana, essa lógica também se repete. A senhora que discute moda no
ônibus como se fosse filosofia moral, o político que fala em ética com os
bolsos estufados de escândalos, o intelectual que cita Kant e não paga o
aluguel — todos são personagens dignos do universo burlesco. A realidade,
afinal, é uma caricatura ambulante daquilo que pretendemos ser.
Machado
diria, com aquele meio sorriso de ceticismo elegante, que o homem é um animal
que se leva a sério demais. Por isso precisa do riso — não o riso fácil da
piada, mas o riso filosófico da desilusão. O caricato e o burlesco, quando bem
observados, são terapias da lucidez: desfazem a ilusão do sublime e nos
devolvem à medida exata do humano — esse meio-termo entre a grandeza sonhada e
a mediocridade vivida.
Em
última instância, o caricato e o burlesco não ridicularizam o mundo — apenas o
desnudam. E o que vemos, por baixo das máscaras, é o mesmo que Machado viu: uma
humanidade ansiosa por parecer profunda, mas eternamente presa à superfície das
suas vaidades. Rir disso, então, é a mais séria forma de pensar.