Um ensaio sobre a anestesia cotidiana
Outro dia eu percebi que
tinha passado por uma padaria inteira sem sentir o cheiro do pão. Não por falta
de pão — ele estava lá, quente, generoso, quase gritando — mas por falta de
mim. Eu estava presente só no corpo. O resto tinha ido responder mensagens,
organizar preocupações, simular produtividade.
Foi ali que me ocorreu:
talvez a gente esteja aprendendo, com uma eficiência assustadora, a idiotizar
os sentidos.
Não no sentido clínico,
claro. Mas no sentido filosófico: torná-los incapazes de produzir experiência.
Quando sentir deixa de
ser experiência
Os sentidos não são
apenas canais biológicos. Eles são formas de pensamento. Ver não é
apenas captar luz; é interpretar. Ouvir não é apenas vibração; é atribuir
sentido. Tocar não é apenas contato; é reconhecimento.
Merleau-Ponty
dizia que o corpo é nossa forma de estar no mundo. Mas o corpo moderno foi
treinado para atravessar o mundo, não para habitá-lo.
A idiotização dos
sentidos acontece quando:
- a visão vira escaneamento,
- a audição vira ruído de fundo,
- o tato vira acidente,
- o paladar vira função,
- o olfato vira quase irrelevante.
O mundo deixa de ser
experiência e vira cenário.
Não é que os sentidos
falhem. Eles são deseducados.
A cultura da velocidade,
da repetição e da utilidade não destrói os sentidos — ela os simplifica. E tudo
que é simplificado perde profundidade.
Nietzsche
temia uma humanidade cansada demais para sentir tragédia e alegria com
intensidade. Talvez estejamos exatamente aí: não sofremos demais, nem amamos
demais, nem nos encantamos demais. Apenas administramos.
Onde os sentidos perdem a
dignidade
No ônibus, alguém escuta
música alta no fone. A música não atravessa. Ela apenas acompanha.
No almoço, mastigamos
enquanto olhamos a tela. O gosto é secundário. Comer vira logística.
No trabalho, digitamos
sem ouvir o som das teclas. As mãos não sabem mais o que fazem — apenas
executam.
No encontro, ouvimos
esperando a nossa vez de falar. A voz do outro vira intervalo.
Até o toque se tornou
apressado. Abraços com prazo. Beijos com agenda.
Os sentidos, que deveriam
ser pontes, viraram atalhos.
O efeito invisível:
quando a vida perde espessura
Quando idiotizamos os
sentidos, a vida não fica triste. Ela fica plana.
Nada dói muito. Nada
encanta muito. Nada marca muito.
E então surge a sensação
estranha:
“Está tudo bem, mas algo está faltando.”
O que falta não é evento.
É presença.
A gente não vive menos
acontecimentos. A gente vive menos experiência dentro deles.
Um possível resgate
Desidiotizar os sentidos
não exige mudança radical. Exige microdesobediências:
- Comer algo em silêncio.
- Olhar um rosto até ele deixar de ser
função.
- Escutar uma música sem fazer mais
nada.
- Tocar um objeto como quem o descobre.
- Andar sem objetivo por cinco minutos.
Não para virar místico.
Mas para lembrar que existir não é só operar.
A ética de sentir
Talvez o maior gesto
revolucionário hoje seja simples e silencioso: sentir de novo.
Não como quem busca
prazer.
Mas como quem se recusa a virar superfície.
Porque idiotizar os
sentidos é perder o mundo sem que o mundo vá embora.
E recuperar os sentidos é
recuperar algo ainda mais raro:
a capacidade de estar dentro da própria vida.