Neste insight num desses momentos banais em que nada de extraordinário acontece...
A xícara de café já fria, a luz entrando torta pela janela, o mundo seguindo
sem pedir licença. De repente, a palavra “iluminado” apareceu — não como título
de santidade, mas como uma pergunta incômoda: iluminado por quê, exatamente?
Pela luz que brilha ou pela sombra que finalmente se reconhece?
A
luz que não vem de cima
A
ideia comum de iluminação ainda carrega algo de espetáculo: um clarão súbito,
uma revelação definitiva, um antes e depois digno de biografia espiritual. Mas
talvez isso seja apenas vaidade metafísica. A luz que vem “de cima” costuma
cegar mais do que orientar. Ela cria eleitos, gurus improvisados e frases de
efeito que não sobrevivem a uma segunda-feira difícil.
A
iluminação real, suspeito, é horizontal. Ela não desce — ela se espalha.
É menos relâmpago e mais lâmpada fraca acesa num corredor longo. Não elimina a
escuridão; apenas torna possível atravessá-la sem tropeçar tanto.
Ser
iluminado, nesse sentido, não é ver tudo. É ver o suficiente para continuar.
Consciência
não é pureza
Existe
uma confusão persistente entre iluminação e pureza moral. Como se o iluminado
fosse alguém que transcendeu o ego, os conflitos, o desejo, o medo — uma
criatura quase asséptica. Mas isso é uma fantasia que nasce do cansaço humano
com a própria complexidade.
Talvez
o iluminado não seja o que se livrou do ego, mas o que aprendeu a
reconhecê-lo sem obedecê-lo automaticamente. Não alguém que não sente
raiva, mas alguém que percebe a raiva surgindo e pergunta: “o que exatamente
quer ser protegido aqui?”
A
iluminação não limpa o chão da alma. Ela acende a luz do cômodo,
revelando a bagunça como ela é.
O
eu que observa o eu
Há
um ponto curioso — e profundamente espiritual — em que a pessoa começa a se
observar vivendo. Não como narcisismo, mas como descolamento. Um pequeno
intervalo entre o impulso e a ação. Entre o pensamento e a crença nele.
Esse
intervalo é ouro espiritual.
Ali
nasce algo novo: um eu que não se confunde totalmente com suas histórias. Um eu
que pode dizer: “isso está acontecendo em mim, mas não sou apenas isso.”
A tradição chama isso de testemunha, consciência, presença. Eu prefiro pensar
como o espaço interno onde a vida acontece.
Ser
iluminado talvez seja habitar esse espaço com mais frequência.
A
espiritualidade sem fuga
Muita
espiritualidade ainda é uma tentativa elegante de fuga. Fuga da dor, da
finitude, da confusão cotidiana. Mas qualquer iluminação que precise negar a
vida concreta é apenas anestesia com linguagem elevada.
O
iluminado não flutua acima do mundo. Ele lava a louça, paga boletos, sente
ciúmes, se cansa — mas faz tudo isso sem acreditar que aí está o sentido
último da existência. Há uma leveza estranha nisso: nada precisa ser
absoluto.
A
vida deixa de ser tribunal e vira laboratório.
A
luz como responsabilidade
Ver
mais não é prêmio; é responsabilidade. Quanto mais consciência, menos desculpas
automáticas. Menos terceirização do próprio caos. O iluminado não pode mais
dizer com tanta facilidade: “sou assim mesmo.”
Porque
agora ele sabe que esse “assim” é móvel.
A
iluminação não salva. Ela compromete. Obriga a responder à vida com mais
honestidade, ainda que isso custe conforto, pertencimento ou certezas antigas.
Iluminado
não é final — é método
Talvez
o maior erro seja tratar a iluminação como ponto de chegada. Um troféu
espiritual. Mas tudo indica que ela é mais um modo de caminhar do que um
lugar para se instalar.
Iluminado
é quem cai e percebe a queda.
Quem
erra e aprende algo real.
Quem
sofre e não transforma isso automaticamente em virtude.
Quem
entende que despertar não elimina o mistério — apenas torna o mistério
habitável.
Um
fechamento provisório
Se
alguém me perguntasse hoje o que é ser iluminado, eu não falaria de luz
intensa, nem de silêncio absoluto. Eu diria algo mais simples — quase
decepcionante:
Iluminado
é quem já não vive completamente no escuro de si mesmo.
E
talvez isso baste. Porque um pouco de luz verdadeira — não a que impressiona,
mas a que orienta — já muda todo o caminho.