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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Iluminado


Neste insight num desses momentos banais em que nada de extraordinário acontece...

A xícara de café já fria, a luz entrando torta pela janela, o mundo seguindo sem pedir licença. De repente, a palavra “iluminado” apareceu — não como título de santidade, mas como uma pergunta incômoda: iluminado por quê, exatamente? Pela luz que brilha ou pela sombra que finalmente se reconhece?

A luz que não vem de cima

A ideia comum de iluminação ainda carrega algo de espetáculo: um clarão súbito, uma revelação definitiva, um antes e depois digno de biografia espiritual. Mas talvez isso seja apenas vaidade metafísica. A luz que vem “de cima” costuma cegar mais do que orientar. Ela cria eleitos, gurus improvisados e frases de efeito que não sobrevivem a uma segunda-feira difícil.

A iluminação real, suspeito, é horizontal. Ela não desce — ela se espalha. É menos relâmpago e mais lâmpada fraca acesa num corredor longo. Não elimina a escuridão; apenas torna possível atravessá-la sem tropeçar tanto.

Ser iluminado, nesse sentido, não é ver tudo. É ver o suficiente para continuar.

Consciência não é pureza

Existe uma confusão persistente entre iluminação e pureza moral. Como se o iluminado fosse alguém que transcendeu o ego, os conflitos, o desejo, o medo — uma criatura quase asséptica. Mas isso é uma fantasia que nasce do cansaço humano com a própria complexidade.

Talvez o iluminado não seja o que se livrou do ego, mas o que aprendeu a reconhecê-lo sem obedecê-lo automaticamente. Não alguém que não sente raiva, mas alguém que percebe a raiva surgindo e pergunta: “o que exatamente quer ser protegido aqui?”

A iluminação não limpa o chão da alma. Ela acende a luz do cômodo, revelando a bagunça como ela é.

O eu que observa o eu

Há um ponto curioso — e profundamente espiritual — em que a pessoa começa a se observar vivendo. Não como narcisismo, mas como descolamento. Um pequeno intervalo entre o impulso e a ação. Entre o pensamento e a crença nele.

Esse intervalo é ouro espiritual.

Ali nasce algo novo: um eu que não se confunde totalmente com suas histórias. Um eu que pode dizer: “isso está acontecendo em mim, mas não sou apenas isso.” A tradição chama isso de testemunha, consciência, presença. Eu prefiro pensar como o espaço interno onde a vida acontece.

Ser iluminado talvez seja habitar esse espaço com mais frequência.

A espiritualidade sem fuga

Muita espiritualidade ainda é uma tentativa elegante de fuga. Fuga da dor, da finitude, da confusão cotidiana. Mas qualquer iluminação que precise negar a vida concreta é apenas anestesia com linguagem elevada.

O iluminado não flutua acima do mundo. Ele lava a louça, paga boletos, sente ciúmes, se cansa — mas faz tudo isso sem acreditar que aí está o sentido último da existência. Há uma leveza estranha nisso: nada precisa ser absoluto.

A vida deixa de ser tribunal e vira laboratório.

A luz como responsabilidade

Ver mais não é prêmio; é responsabilidade. Quanto mais consciência, menos desculpas automáticas. Menos terceirização do próprio caos. O iluminado não pode mais dizer com tanta facilidade: “sou assim mesmo.”

Porque agora ele sabe que esse “assim” é móvel.

A iluminação não salva. Ela compromete. Obriga a responder à vida com mais honestidade, ainda que isso custe conforto, pertencimento ou certezas antigas.

Iluminado não é final — é método

Talvez o maior erro seja tratar a iluminação como ponto de chegada. Um troféu espiritual. Mas tudo indica que ela é mais um modo de caminhar do que um lugar para se instalar.

Iluminado é quem cai e percebe a queda.

Quem erra e aprende algo real.

Quem sofre e não transforma isso automaticamente em virtude.

Quem entende que despertar não elimina o mistério — apenas torna o mistério habitável.

Um fechamento provisório

Se alguém me perguntasse hoje o que é ser iluminado, eu não falaria de luz intensa, nem de silêncio absoluto. Eu diria algo mais simples — quase decepcionante:

Iluminado é quem já não vive completamente no escuro de si mesmo.

E talvez isso baste. Porque um pouco de luz verdadeira — não a que impressiona, mas a que orienta — já muda todo o caminho.


sexta-feira, 25 de abril de 2025

Casa Interior

Há uma casa dentro de nós. Alguns chamam de alma, outros de espírito, outros ainda de consciência. Pouco importa o nome — é um espaço íntimo, silencioso, misterioso, e, ao mesmo tempo, tão nosso quanto nosso próprio respirar. O problema é que, muitas vezes, vivemos do lado de fora dela. Construímos fachadas, decoramos muros, trocamos telhados, pintamos janelas, mas raramente entramos.

Essa casa interior não se revela com chave. Ela se revela com pausa.

Vivemos tão ocupados tentando provar algo para os outros — ou para nós mesmos — que esquecemos de nos visitar. Isso mesmo. Esquecemos de fazer aquela visita delicada ao nosso próprio ser, como quem bate na porta e diz: “Estou aqui. Queria te escutar.”

E quando, finalmente, sentamos no chão dessa casa, percebemos que não estamos sozinhos. Há ali dentro uma criança com olhos atentos, um velho cansado que pede repouso, um sábio que não tem pressa, um animal que ainda teme a dor e um anjo que nos conhece sem julgamento. Tudo isso somos nós. E tudo isso também é o outro. Eis o elo invisível que nos une a todos.

Mas o que faz com que algumas pessoas vivam a vida toda sem nunca cruzar a soleira de sua casa interior?

Talvez o medo. Talvez o barulho. Talvez a crença de que tudo o que existe está do lado de fora, em metas, em conquistas, em comparação. A cultura do fazer, do ir, do crescer para fora — mas não para dentro. Só que o crescimento sem raízes é uma árvore que não se sustenta.

O retorno ao lar

O retorno à casa interior é silencioso. Às vezes começa com o cansaço. Outras, com uma perda. Outras ainda com um encantamento — uma flor que desabrocha, um pôr do sol, um poema esquecido, uma música que toca bem onde doía. Não é um caminho que se percorra com os pés, mas com a entrega.

E nesse lar reencontrado, surge uma nova maneira de viver. Começamos a perceber que tudo fala com tudo. Que os acontecimentos não são apenas fatos, mas mensagens. Que as pessoas não são obstáculos, mas espelhos. Que o tempo não é inimigo, mas mestre. E que a alma, essa sim, está sempre disposta a nos abrigar, se nos dispusermos a escutá-la.

O sagrado cotidiano

O espiritualismo que propomos aqui não é etéreo. Ele caminha de chinelos pela casa, olha nos olhos do caixa do supermercado, sente o perfume do café da manhã. Ele não precisa de templo, embora os respeite. Ele é uma postura. Uma forma de estar no mundo com mais presença, mais escuta, mais reverência pelo mistério da existência.

Sri Ram, pensador espiritualista, dizia: “A alma não busca respostas. Ela busca escutar a vida em silêncio.” E é exatamente isso. A casa interior não nos dá garantias, mas nos devolve o sentido. E sentido, em tempos de excesso, é o verdadeiro luxo.

Para todos

Este ensaio é para todos. Para quem crê e para quem duvida. Para quem busca e para quem acha que já encontrou. Para quem está cansado e para quem ainda não se permitiu cansar. Porque todos, sem exceção, habitamos essa casa. E todos, mais cedo ou mais tarde, seremos convidados a voltar.

Talvez hoje. Talvez agora. Talvez este texto seja apenas a campainha tocando.

Você atende?