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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Integralismo Social


Sabe quando a gente sente que o mundo virou um conjunto de peças soltas, como se cada pessoa vivesse num quebra-cabeça diferente, e ninguém mais soubesse qual imagem está tentando montar? Pois é — talvez o grande mal-estar contemporâneo seja esse: a fragmentação. O “eu” se separou do “nós”, o coletivo se dissolveu no individual, e o resultado é uma solidão social travestida de liberdade. É nesse ponto que o integralismo social reaparece como provocação: e se estivéssemos errando o caminho ao confundir autonomia com isolamento?

Historicamente, o termo “integralismo” evocou correntes políticas e filosóficas que buscavam reintegrar o homem à sociedade e à totalidade do ser. No Brasil, ficou marcado pelo movimento de Plínio Salgado, de caráter nacionalista e autoritário. No entanto, o que aqui chamamos de integralismo social não carrega essa herança política; trata-se de uma releitura ética e filosófica, uma tentativa de pensar a totalidade humana dentro da sociedade contemporânea — uma totalidade não de uniformidade, mas de integração das diferenças.

Ser “integral” não é ser igual. É reconhecer que a pluralidade é o tecido da vida social. Durkheim, em Da Divisão do Trabalho Social, chamou isso de solidariedade orgânica: quanto mais complexa a sociedade, mais interdependentes se tornam os indivíduos. E, no entanto, vivemos um paradoxo — quanto mais conectados, mais fragmentados nos sentimos. A tecnologia prometeu unir, mas apenas multiplicou as ilhas. O integralismo social, nesse sentido, é um convite a reaprender a viver com o outro sem medo de perder o próprio eu.

O filósofo N. Sri Ram, ao refletir sobre a unidade da vida, dizia que “a verdadeira fraternidade nasce da consciência da mesma vida em todos os seres”. Essa visão ecoa o espírito do integralismo social: o reconhecimento de que o humano não se realiza sozinho. Ser integral é não negar o outro dentro de si.

A filósofa Marilena Chaui, em sua crítica ao autoritarismo e à sociedade hierárquica brasileira, também oferece chaves importantes para pensar essa integração. Em O que é Ideologia e Convite à Filosofia, Chaui argumenta que o pensamento autoritário brasileiro constrói uma falsa harmonia — uma unidade imposta de cima para baixo, que silencia o conflito e domestica a diferença. Para ela, a verdadeira sociedade democrática não é a que elimina o conflito, mas a que o reconhece e o transforma em diálogo. Assim, o integralismo social só pode ser autêntico se for horizontal, se nascer do reconhecimento recíproco, e não da imposição. É uma integração que se constrói no debate, não na obediência.

Política e Educação: os espaços da reintegração

Aplicado à política, o integralismo social exigiria uma democracia participativa real, em que o cidadão não fosse apenas um eleitor passivo, mas um coautor do bem comum. Uma política integral não busca apenas eficiência técnica, mas coesão ética — a percepção de que as decisões públicas tocam a totalidade da vida social. Isso implica uma nova cultura política, baseada em diálogo, solidariedade e corresponsabilidade.

Na educação, o integralismo social se traduziria numa pedagogia da inteireza. O aprendizado não se limitaria à acumulação de informações, mas se orientaria para a formação integral do ser — razão, emoção, corpo e convivência. Paulo Freire já dizia que “educar é um ato de amor”, e amar, nesse contexto, é integrar: integrar saberes, culturas, gerações e, sobretudo, pessoas.

Um novo sentido de inteireza

No cotidiano, essa reintegração começa em gestos simples: ouvir sem interromper, cooperar sem competir, reconhecer no outro não um obstáculo, mas uma extensão de si. O integralismo social, assim, não é uma doutrina fechada, mas uma atitude diante da vida, um modo de costurar as partes esgarçadas do tecido humano.

Como lembrava Martin Buber, na relação “Eu-Tu” o outro deixa de ser um instrumento e se torna presença. Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente esse: voltar a nos relacionar como presenças, e não como funções. Ser integral, afinal, é ser plenamente humano — e isso só é possível em relação.

O Integralismo Social como horizonte ético do século XXI

O pensador francês Edgar Morin, ao propor o pensamento da complexidade, afirma que não há compreensão possível do mundo se não unirmos o que foi separado pelo pensamento simplificador: sujeito e objeto, natureza e cultura, razão e emoção. O integralismo social é, nesse sentido, um desdobramento ético dessa mesma visão: compreender que a sociedade só será verdadeiramente humana quando aprender a pensar e viver de forma complexa, ou seja, integrada.

Morin nos convida a “ligar os saberes” — e o integralismo social amplia esse convite para o campo das relações humanas: ligar as pessoas. Não se trata de apagar as diferenças, mas de reconhecê-las como parte do todo. O século XXI, marcado por crises ecológicas, tecnológicas e identitárias, exige mais do que soluções técnicas; exige inteireza moral e espiritual, a consciência de que cada ato, por menor que seja, toca a totalidade do real.

Portanto, o integralismo social não é nostalgia nem utopia — é um horizonte ético, um esforço contínuo de reconciliação entre o indivíduo e o mundo. Ele nos lembra que ser inteiro não é ser perfeito, mas estar presente — inteiro na relação, inteiro na ação, inteiro na vida.