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quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Seres de Sobrecarga


Tem dias que a gente acorda já cansado. Antes mesmo do café, o peso do mundo já nos visita: mensagens não respondidas, metas inalcançadas, promessas esquecidas. Parece que vivemos como se tudo fosse urgente, tudo fosse essencial, tudo fosse pessoal. A isso, Nietzsche poderia chamar de "sobrecarga do espírito". Mas será que esse excesso é apenas um mal moderno? Ou já havia, no âmago da existência humana, uma tendência a se deixar esmagar pelo que carrega?

Nietzsche, em A Gaia Ciência e Assim Falava Zaratustra, nos convida a olhar para o que nos oprime não como vítimas, mas como criadores. O homem moderno — diz ele — se tornou um ser de sobrecarga porque perdeu a arte de esquecer. Acumula lembranças, dores, moralismos, expectativas, tudo em nome de uma pretensa evolução. Mas Nietzsche não acredita nesse acúmulo como virtude. Para ele, o excesso pesa, imobiliza, transforma o ser humano em um animal ressentido, incapaz de dançar.

O ser de sobrecarga é aquele que vive carregando tudo: o passado que não digeriu, os valores que não questiona, os desejos que não são seus. É um Atlas neurótico, dobrado não sob o peso do mundo, mas sob o peso de seus próprios “deveres”. O inovador aqui é pensar que a sobrecarga não é só uma questão de excesso externo, mas uma falha de digestão interna. Nietzsche nos sugere que a vida é uma arte do estômago: só vive bem quem sabe digerir.

Então, qual a saída? Nietzsche propõe o contrário do acúmulo: o esquecimento ativo, o desprendimento criador, a leveza do espírito que sabe dizer “sim” ao instante. O ideal nietzschiano não é um ser carregado de valores, mas um artista de si mesmo, alguém que escolhe o que vale a pena carregar e, principalmente, o que deve ser jogado fora. O Übermensch, ou além-do-homem, é aquele que transforma a sobrecarga em potência criadora, que usa a pressão para fazer jorrar sentido, não para se afundar em lamentos.

Hoje, quando sentimos a alma esgotada, talvez não estejamos trabalhando demais, mas vivendo de menos. Talvez estejamos apenas acumulando, como aqueles colecionadores de tralhas emocionais que Nietzsche tanto criticava. O convite nietzschiano é claro: esvazie-se. Esqueça. Escolha o que merece ser lembrado. E então, leve apenas o necessário — como quem dança, não como quem arrasta.

Afinal, como dizia o próprio Nietzsche: “Você precisa ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.” Mas cuidado: caos demais vira peso. Estrela que não dança, explode.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Seres Complicados


Outro dia, me peguei pensando em como a gente consegue transformar coisas simples em dilemas existenciais. Era só para escolher uma pizza, mas viramos uma assembleia de crise. Um queria marguerita, outro vegetariana, e teve quem quisesse inventar uma de strogonoff (!). A cena toda parecia banal, mas ali, naquele conflito de gostos e silêncios, estava estampada a complexidade humana. Porque, no fundo, não é sobre a pizza — é sobre o que a gente quer, o que a gente cede, e o que a gente esconde. Somos seres complicados, e não só no cardápio.

Por que somos assim? Por que pensamos tanto, duvidamos tanto, sentimos demais, desejamos o que nos falta e, às vezes, o que nos destrói? Não bastava viver? Os animais parecem tão resolvidos: um cachorro não faz análise existencial às três da manhã. Mas a gente, sim. A gente complica.

Essa complicação talvez não seja defeito. Talvez seja constituição. Como diria o filósofo Emmanuel Levinas, “o ser humano é aquele que é responsável antes de saber.” A gente sente culpa antes de entender o motivo, se emociona antes de racionalizar. Nossa consciência não é só uma ferramenta para organizar a realidade — é também um espelho torto que nos reflete com atraso e distorção.

Como disse Sartre, "o homem está condenado a ser livre". Condenado, veja bem — não agraciado. Porque a liberdade, para o existencialista, não é uma leveza de voar, mas um peso de decidir. Carregamos o fardo de sermos autores da própria existência, sem roteiro prévio ou manual de instruções. Nascemos sem essência, e tudo o que somos será construído nas escolhas que fazemos — mesmo aquelas que evitamos. E é nessa vertigem da liberdade que mora a nossa complicação mais radical: temos que escolher quem ser, sem garantias, sem desculpas. Ao contrário das coisas, que simplesmente são, nós precisamos nos fazer. E talvez esse seja o abismo mais profundo: não há essência esperando ser descoberta, só o vazio que precisamos preencher com atos, quedas, tentativas, e a permanente possibilidade de nos reinventarmos. A complexidade humana não é defeito — é o preço da liberdade.

Mas o budismo, curioso em sua suavidade, sussurra um contraste profundo. Thich Nhat Hanh nos lembra que “você não é uma entidade separada. Você é como uma folha em uma árvore. Quando a folha entende que faz parte da árvore, ela para de sofrer.” Isso é radical: o sofrimento nasce da ideia de separação, de ego endurecido, de um "eu" que quer ser único e eterno. Enquanto o existencialismo nos lança ao peso de criar o próprio sentido, o budismo dissolve a rigidez do “eu” e aponta para a paz que surge quando deixamos de querer controlar tudo. Assim, ser humano é também reconhecer que não somos tão sólidos quanto pensamos — somos corrente, não pedra. E nessa fluidez, talvez esteja uma outra forma de liberdade: a de não ter que sustentar um eu fixo o tempo todo. Um alívio, não?

Por isso, podemos rir e chorar da mesma lembrança. Amar alguém que já não existe mais — ou que nunca existiu de fato. Fugir de nós mesmos e ainda assim carregar nossa sombra por onde formos. Somos contraditórios por natureza: queremos liberdade e rotina, segurança e aventura, solidão e companhia. Queremos ser únicos e, ao mesmo tempo, aceitos por todos. E talvez seja aí que more a nossa beleza: na tentativa sincera de dar conta de tudo isso com os parcos recursos de um coração inquieto.

Nietzsche, que não era exatamente otimista, já dizia que “o homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem — uma corda sobre o abismo.” Vivemos nesse fio, tentando não cair, tentando fazer sentido. E se tropeçamos, não é porque somos fracos, mas porque estamos em movimento. Só quem está em movimento tropeça.

Então talvez a complicação não seja uma falha, mas uma flor selvagem que brota da nossa condição. Um emaranhado de raízes, paradoxos e vontades que nos torna... humanos. E que sorte a nossa: poder chorar num filme bobo, sentir saudade de um cheiro, mudar de ideia no meio de uma frase, amar errado e continuar tentando. Isso é complicação. Mas é também — e profundamente — vida.

Porque, no fim das contas, viver não é resolver. É aprender a dançar com o que não se entende.