Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador desencantamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desencantamento. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A Venalidade

Às vezes eu me pego observando certas conversas no trabalho, no mercado, no ônibus — aquelas trocas rápidas, mas que carregam uma energia meio estranha, como se houvesse um preço invisível pairando no ar. É quando alguém ajuda, mas já olhando para os lados para ver quem está vendo; quando outro elogia, mas com o cuidado calculado de quem deposita uma moeda num cofre e espera rendimentos; quando uma gentileza vem empacotada com a etiqueta de "você me deve essa". Nessas horas, sinto que a vida escorrega para um terreno desconfortável: o da venalidade.

Já falei sobre o tema num ensaio anterior, mas vale a pena voltar ao assunto.

Não falo aqui só do suborno explícito, do dinheiro passado por baixo da mesa, mas dessa lógica mais discreta — e perigosa — que transforma relações, favores, conversas e até sentimentos em pequenas mercadorias. É o mundo onde tudo tem preço e quase nada tem valor.

 

O território da venalidade

A venalidade é um fenômeno antigo. Desde as cidades gregas já havia o temor de que a “agora” — espaço da vida pública — se tornasse apenas um mercado. Aristóteles mesmo alertava que quando a pólis deixa de ser uma comunidade de fins éticos e se converte num amontoado de interesses, ela começa a se corroer por dentro.

Mas venalidade não é apenas corrupção institucional; é também um modo de ser. É o hábito de converter relações humanas em transações. É a incapacidade de agir por princípio, por dever, por dignidade — apenas por vantagem. O venal não é necessariamente mau: é, antes, alguém que perdeu a sensibilidade para o que não pode ser comprado.

Max Weber chamaria isso de desencantamento do mundo: quando os valores que antes davam sentido à vida são substituídos pela lógica instrumental do cálculo. Já Hannah Arendt lembraria que, quando tudo se torna meio para outra coisa, a ação humana perde sua grandeza — porque deixa de ser livre.

 

Quando a pessoa se vende sem notar

Na prática, a venalidade aparece em atitudes que passam despercebidas:

  • quando alguém muda de opinião não por reflexão, mas porque "não compensa brigar";
  • quando o elogio é uma estratégia, não uma expressão;
  • quando a amizade se torna “networking”;
  • quando o silêncio vale mais que a verdade porque a verdade teria custo.

O problema é que, quanto mais se usa esse mecanismo, mais ele se torna natural. A pessoa não percebe, mas aos poucos começa a colocar preço até no que não tem preço: tempo, emoções, presença, caráter. E o pior: ela começa a colocar preço em si mesma.

O venal vira mercadoria, não por ser comprada, mas por se oferecer.

 

A lógica perversa da equivalência

O filósofo Michel Sandel, ao refletir sobre a sociedade de mercado, afirma que o grande perigo não é que paguemos preços altos, mas que certos valores se percam ao serem colocados no mercado. Uma vez que se paga para alguém fazer fila no seu lugar, por exemplo, a fila já não significa mais justiça — significa apenas poder de compra.

Assim também acontece com a dignidade: ao ser negociada, ela perde a própria natureza.
A venalidade, nesse sentido, é um tipo de degradação simbólica. Não derruba só instituições; corrói subjetividades. Ela cria um mundo onde ninguém confia porque todos desconfiam de todos — e com razão.

 

Um olhar brasileiro: Marilena Chaui

Para trazer um comentário dentro da nossa própria tradição, Marilena Chaui costuma dizer que a violência das relações sociais nasce quando a desigualdade se naturaliza. A venalidade é parte desse processo: ela pressupõe que alguém pode pagar, alguém pode se vender, e que isso é normal.

É como se, ao aceitar a lógica do preço sobre o valor, a sociedade abrisse mão da igualdade simbólica, aquela que não depende de dinheiro, mas de reconhecimento. Chaui diria que a venalidade é uma forma de opressão invisível, porque transforma o vínculo humano em moeda de troca.

 

A resistência: revalorizar o que não tem preço

Se a venalidade nasce da conversão do valor em preço, a resistência nasce da recusa. É quando alguém faz o que é certo mesmo que ninguém veja. Quando fala a verdade apesar das consequências. Quando não usa a amizade como trampolim. Quando não vende sua presença, seu silêncio, seu acordo.

Essa recusa cotidiana — e muitas vezes silenciosa — é um ato político e moral. É o gesto de quem entende que algumas coisas sustentam o mundo precisamente porque não podem ser compradas: o caráter, o respeito, a palavra, a confiança.

 

O que resta quando tudo tem preço?

Se tudo pode ser vendido, inclusive nós mesmos, o que sobra da nossa humanidade? Talvez a grande questão da venalidade seja justamente essa: não o que se compra, mas o que se perde.

E é aqui que o ensaio se abre de volta para o cotidiano: cada pequena decisão de não se vender — nem por conforto, nem por medo, nem por conveniência — restaura silenciosamente o valor das coisas. Como quem acende uma vela num corredor escuro, e de repente percebe que, se não houver quem guarde o que não tem preço, nada mais vai iluminar o caminho.