Às vezes eu me pego observando certas conversas no trabalho, no mercado, no ônibus — aquelas trocas rápidas, mas que carregam uma energia meio estranha, como se houvesse um preço invisível pairando no ar. É quando alguém ajuda, mas já olhando para os lados para ver quem está vendo; quando outro elogia, mas com o cuidado calculado de quem deposita uma moeda num cofre e espera rendimentos; quando uma gentileza vem empacotada com a etiqueta de "você me deve essa". Nessas horas, sinto que a vida escorrega para um terreno desconfortável: o da venalidade.
Já
falei sobre o tema num ensaio anterior, mas vale a pena voltar ao assunto.
Não
falo aqui só do suborno explícito, do dinheiro passado por baixo da mesa, mas
dessa lógica mais discreta — e perigosa — que transforma relações, favores,
conversas e até sentimentos em pequenas mercadorias. É o mundo onde tudo tem
preço e quase nada tem valor.
O
território da venalidade
A
venalidade é um fenômeno antigo. Desde as cidades gregas já havia o temor de
que a “agora” — espaço da vida pública — se tornasse apenas um mercado. Aristóteles
mesmo alertava que quando a pólis deixa de ser uma comunidade de fins
éticos e se converte num amontoado de interesses, ela começa a se corroer por
dentro.
Mas
venalidade não é apenas corrupção institucional; é também um modo de ser. É o
hábito de converter relações humanas em transações. É a incapacidade de agir
por princípio, por dever, por dignidade — apenas por vantagem. O venal não é
necessariamente mau: é, antes, alguém que perdeu a sensibilidade para o que não
pode ser comprado.
Max
Weber chamaria isso de desencantamento do mundo:
quando os valores que antes davam sentido à vida são substituídos pela lógica
instrumental do cálculo. Já Hannah Arendt lembraria que, quando tudo se
torna meio para outra coisa, a ação humana perde sua grandeza — porque deixa de
ser livre.
Quando
a pessoa se vende sem notar
Na
prática, a venalidade aparece em atitudes que passam despercebidas:
- quando alguém muda de opinião não por
reflexão, mas porque "não compensa brigar";
- quando o elogio é uma estratégia, não
uma expressão;
- quando a amizade se torna
“networking”;
- quando o silêncio vale mais que a
verdade porque a verdade teria custo.
O
problema é que, quanto mais se usa esse mecanismo, mais ele se torna natural. A
pessoa não percebe, mas aos poucos começa a colocar preço até no que não tem
preço: tempo, emoções, presença, caráter. E o pior: ela começa a colocar preço
em si mesma.
O
venal vira mercadoria, não por ser comprada, mas por se oferecer.
A
lógica perversa da equivalência
O
filósofo Michel Sandel, ao refletir sobre a sociedade de mercado, afirma
que o grande perigo não é que paguemos preços altos, mas que certos valores se
percam ao serem colocados no mercado. Uma vez que se paga para alguém fazer
fila no seu lugar, por exemplo, a fila já não significa mais justiça —
significa apenas poder de compra.
Assim
também acontece com a dignidade: ao ser negociada, ela perde a própria
natureza.
A venalidade, nesse sentido, é um tipo de degradação simbólica. Não derruba só
instituições; corrói subjetividades. Ela cria um mundo onde ninguém confia
porque todos desconfiam de todos — e com razão.
Um
olhar brasileiro: Marilena Chaui
Para
trazer um comentário dentro da nossa própria tradição, Marilena Chaui costuma
dizer que a violência das relações sociais nasce quando a desigualdade se
naturaliza. A venalidade é parte desse processo: ela pressupõe que alguém pode
pagar, alguém pode se vender, e que isso é normal.
É
como se, ao aceitar a lógica do preço sobre o valor, a sociedade abrisse mão da
igualdade simbólica, aquela que não depende de dinheiro, mas de reconhecimento.
Chaui diria que a venalidade é uma forma de opressão invisível, porque
transforma o vínculo humano em moeda de troca.
A
resistência: revalorizar o que não tem preço
Se
a venalidade nasce da conversão do valor em preço, a resistência nasce da
recusa. É quando alguém faz o que é certo mesmo que ninguém veja. Quando fala a
verdade apesar das consequências. Quando não usa a amizade como trampolim.
Quando não vende sua presença, seu silêncio, seu acordo.
Essa
recusa cotidiana — e muitas vezes silenciosa — é um ato político e moral. É o
gesto de quem entende que algumas coisas sustentam o mundo precisamente porque
não podem ser compradas: o caráter, o respeito, a palavra, a confiança.
O
que resta quando tudo tem preço?
Se
tudo pode ser vendido, inclusive nós mesmos, o que sobra da nossa humanidade?
Talvez a grande questão da venalidade seja justamente essa: não o que se
compra, mas o que se perde.
E
é aqui que o ensaio se abre de volta para o cotidiano: cada pequena decisão de
não se vender — nem por conforto, nem por medo, nem por conveniência — restaura
silenciosamente o valor das coisas. Como quem acende uma vela num corredor
escuro, e de repente percebe que, se não houver quem guarde o que não tem
preço, nada mais vai iluminar o caminho.
.jpg)