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quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Identidade Pessoal

E o teatro da mente

Quem sou eu quando ninguém está olhando? E mais ainda: quem sou eu quando nem eu mesmo estou olhando? A questão da identidade pessoal parece antiga, quase intuitiva, mas sob a lente da filosofia da mente, ela se desdobra em problemas profundos e instigantes. Ao invés de um “eu” fixo e essencial, encontramos uma construção instável, narrada em tempo real pela consciência.

Daniel Dennett, filósofo estadunidense, propõe que o “eu” é como um centro de gravidade narrativo: útil, mas fictício. Assim como o centro de gravidade de um objeto físico não é uma parte real, mas uma abstração matemática, o “eu” é o produto de múltiplos processos mentais operando juntos sem um comandante central. A mente seria, então, um teatro sem diretor, onde personagens — desejos, memórias, intenções — improvisam em cena. Ser alguém é manter um mínimo de coerência narrativa, mesmo que essa coerência seja frágil e construída retrospectivamente.

Mas esse modelo ganha contornos mais precisos quando entramos no pensamento do filósofo brasileiro Cláudio Costa. Em sua obra voltada à filosofia da mente, Costa oferece uma leitura analítica da identidade pessoal a partir da intersecção entre consciência, linguagem e persistência ao longo do tempo. Influenciado por autores como Kripke, Parfit e Wittgenstein, ele aborda o problema da identidade não como uma questão de essência, mas de referência rígida e continuidade psicológica.

Para Cláudio Costa, a identidade pessoal está ligada à possibilidade de reconhecimento e atribuição de predicados mentais a um mesmo sujeito ao longo do tempo, mesmo diante de variações psicológicas. Em outras palavras, dizer que "sou o mesmo" não implica estabilidade absoluta de caráter, mas uma continuidade mínima das condições que me tornam atribuível como sujeito de experiências e ações. Esse sujeito, no entanto, não é um "fantasma na máquina", mas uma instância funcional, sustentada pela linguagem e pela memória.

Nesse ponto, Costa se distancia tanto de visões essencialistas quanto de reducionismos fisicalistas extremos. Ele rejeita a ideia de uma alma substancial e também a de que identidade pessoal possa ser reduzida a estados cerebrais isolados. Em vez disso, propõe uma ontologia de segunda ordem, onde o “eu” é uma construção conceitual que permite nomear e organizar um fluxo contínuo de estados mentais.

Essa leitura nos ajuda a entender por que somos capazes de reconhecer a nós mesmos mesmo após grandes transformações — emocionais, cognitivas ou físicas. A identidade pessoal, nesse sentido, é um conjunto de critérios lógicos e conceituais que tornam possível o uso contínuo do pronome “eu” com significado prático e ético.

É possível ver aqui um eco da metáfora teatral de Dennett, mas agora com uma moldura analítica mais precisa: o palco é sustentado por estruturas conceituais que nos permitem distinguir entre “alguém mudado” e “alguém outro”. O “eu” é uma entidade conceitual persistente, mesmo quando os personagens do enredo se reinventam.

Na vida cotidiana, essa abordagem é útil para explicar por que às vezes sentimos que mudamos muito — e, ao mesmo tempo, continuamos a nos reconhecer. Por que dizemos “aquilo não parecia comigo”, mesmo sabendo que fomos nós que fizemos? Porque há, na base da identidade, um julgamento reflexivo que busca coerência, continuidade e autoria — ainda que parcial — das próprias ações. Cláudio Costa chama atenção para esse vínculo entre identidade e responsabilidade moral: reconhecer-se como o mesmo é também reconhecer-se como autor.

Ser alguém, nesse teatro da mente, não é possuir uma substância oculta e imutável, mas sustentar, com algum êxito, a continuidade de um papel que reconhecemos como nosso. A identidade pessoal, para Dennett, é a ficção funcional que emerge da mente múltipla; para Cláudio Costa, é a construção lógica e conceitual que permite a referência contínua ao sujeito de experiências mentais. Em ambos os casos, o “eu” não é um dado, mas uma conquista narrativa e racional. O que chamamos de “ser alguém” é, no fundo, a capacidade de organizar o que passa pela mente como se tivesse um autor — mesmo que esse autor esteja em constante reescrita.


sábado, 14 de junho de 2025

Solidariedade Dukerniana

Sabe quando você entra numa padaria e sem perceber forma uma fila atrás de quem chegou primeiro? Ou quando pega um ônibus e mesmo com sono cede o lugar para uma senhora? Ou ainda quando ninguém te conhece no trabalho novo, mas mesmo assim todos já respeitam sua função, sem nem saber quem você é? Pois é. Isso é solidariedade no sentido dukerniano.

Émile Durkheim dizia que as sociedades se mantêm coesas graças a formas de solidariedade. Não é só empatia, nem compaixão. Para ele, "solidariedade" é o cimento invisível que mantém a ordem social. E existem duas formas disso acontecer: solidariedade mecânica e solidariedade orgânica.

A solidariedade mecânica é típica das sociedades simples, tradicionais, onde todo mundo pensa mais ou menos igual, vive de forma parecida, segue os mesmos costumes — como uma pequena vila onde todos se conhecem pelo nome e ninguém precisa de crachá. É o tipo de vínculo que une pessoas pela semelhança.

Já a solidariedade orgânica é própria das sociedades modernas e complexas — como a cidade grande, onde ninguém sabe quem é o outro, mas todo mundo depende de todo mundo. O padeiro não faz sua roupa; o alfaiate não planta seu próprio arroz; o engenheiro não conserta o encanamento da própria casa. Vivemos ligados não pela semelhança, mas pela diferença funcional. Cada um faz uma parte e confia que o outro fará a dele.

Se você vai ao supermercado e compra um pacote de arroz, nem imagina quem colheu, processou, transportou, empacotou. Mas sem todos eles — desconhecidos, anônimos, invisíveis — você passaria fome. Essa é a solidariedade dukerniana que sustenta nossa vida urbana sem que a gente perceba.

É interessante: quanto mais complexa a sociedade, mais "desconhecidos" garantem nossa sobrevivência. Isso gera uma confiança sistêmica — não no indivíduo concreto, mas no papel social que ele ocupa.

Durkheim alertava: se essa solidariedade enfraquece, surge a anomia — um estado de desorientação social, onde as regras perdem o sentido e as pessoas não sabem mais como agir. Não é raro sentir isso em grandes crises, como pandemias ou guerras, quando o fio invisível da confiança social ameaça se romper.

No fundo, até quando você reclama de um atraso do motoboy ou de um mau atendimento no banco, está invocando essa solidariedade dukerniana: você espera que cada peça do sistema funcione sem precisar supervisioná-la.

Como comentou o sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Holanda, no Brasil temos um costume forte de "personalizar" as relações — preferimos confiar em pessoas, não em funções. Talvez por isso a solidariedade orgânica aqui tenha suas falhas e a "mecânica" ainda resista em laços familiares, amizades, favores.

Mas no trânsito, na fila, no mercado, no aplicativo, no elevador… ela age em silêncio. Como o ar que respiramos sem notar.