O insight inicial nesta lua cheia de inspirações...
Há
palavras que não explicam: elas acontecem. Inescrutabilidade insondável
é uma dessas expressões que não pedem definição, mas silêncio atento. Ela não
aponta para algo que ainda não entendemos; aponta para algo que, mesmo
compreendido, permanece opaco. O erro moderno é imaginar que o mistério é
apenas um problema técnico mal resolvido. Este ensaio parte de uma hipótese
diferente: há dimensões da realidade cuja função não é serem decifradas, mas
sustentarem o mundo precisamente por não se deixarem reduzir.
O
limite que não é falha
Costumamos
tratar o que não compreendemos como deficiência: falta de dados, falha de
método, ignorância provisória. No entanto, a inescrutabilidade insondável não é
uma lacuna no conhecimento — é um limite estrutural da própria condição
humana.
Kant
falava
da coisa-em-si como aquilo que escapa à experiência. Mas talvez o erro esteja
em pensar esse “escapar” como um defeito da razão. O insondável não é o que a
razão ainda não alcançou; é o que garante que a razão não se torne tirânica. Um
mundo totalmente escrutável seria um mundo exaurido, sem espessura, sem
surpresa, sem reverência.
O
engano da transparência total
Vivemos
sob o mito da transparência: tudo deve ser explicado, exibido, medido,
rastreado. Relações, sentimentos, decisões morais e até a interioridade
passaram a ser tratadas como sistemas passíveis de auditoria. Mas a promessa de
clareza absoluta produz o efeito contrário: quanto mais tentamos tornar tudo
visível, mais o essencial se retira.
A
inescrutabilidade insondável funciona como um núcleo de resistência
ontológica. Ela impede que o real seja completamente colonizado por
narrativas, algoritmos ou diagnósticos. Não é à toa que aquilo que mais importa
— amor, fé, sentido, vocação — se revela sempre de forma oblíqua, fragmentária,
muitas vezes tardia.
O
mistério como condição de sentido
Há
um paradoxo silencioso: só buscamos sentido porque algo nos escapa. Se tudo
fosse imediatamente inteligível, não haveria caminho, apenas inventário. O
mistério não é o oposto do sentido; é sua condição de possibilidade.
O
insondável não bloqueia a existência — ele a orienta. Assim como o horizonte
não é um lugar a ser alcançado, mas o que torna possível caminhar, a
inescrutabilidade não é algo a ser vencido, mas aquilo que organiza a
experiência humana em torno da busca, e não da posse.
Ética
do não-saber
Reconhecer
a inescrutabilidade insondável exige uma ética específica: a ética da
contenção. Nem tudo precisa ser interpretado, diagnosticado ou corrigido.
Há dores que pedem presença, não explicação. Há decisões que pedem
responsabilidade, não garantia.
Essa
ética resiste ao impulso contemporâneo de controle absoluto. Ela lembra que
agir bem não é agir com total certeza, mas agir com humildade diante do que não
se deixa dominar. O verdadeiro perigo não está no não-saber, mas na ilusão de
saber demais.
O
eu como enigma permanente
Talvez
o lugar mais radical da inescrutabilidade seja o próprio sujeito. Não somos
apenas desconhecidos para os outros; somos, em certo sentido, desconhecidos
para nós mesmos. A identidade não é um objeto interno estável, mas um processo
narrativo sempre inacabado.
O
eu não é um problema a ser resolvido, mas uma pergunta que se mantém viva. Quem
tenta se decifrar completamente acaba se empobrecendo, reduzindo-se a rótulos,
diagnósticos ou histórias repetidas. O insondável em nós é o que permite
transformação.
Habitar
o mistério
A
inescrutabilidade insondável não é uma derrota do pensamento, mas seu ponto de
maturidade. Pensar bem não é eliminar o mistério, mas aprender a conviver com
ele sem ansiedade. O mundo não pede que o dominemos; pede que o escutemos.
Talvez
a sabedoria contemporânea consista menos em iluminar tudo e mais em saber onde
a luz deve parar. Porque há zonas da realidade que só permanecem
verdadeiras enquanto permanecem indecifráveis. Pisar na lua, cheia de
mistérios, repousar o olhar sobre ela banhando minha mente com sua luz prata
reflexo do sol de ouro que também a admira e sabe-se lá até onde a imaginação
irá levar minhas reflexões.

