Quando o extraordinário se esconde no cotidiano
Há dias em que a vida
parece se dissolver no automático: acordar, correr, resolver, responder. Tudo
tão urgente que até o silêncio se sente invadido.
E é curioso — porque
justamente nesses dias em que mais procuramos um “grande sentido” para
continuar, ele costuma se esconder nas frestas do cotidiano.
Um gesto simples que muda
o dia
Lembro de uma manhã
qualquer. O ônibus atrasou, o café esfriou, e a pressa parecia guiar o mundo.
Foi quando uma senhora, sentada ao meu lado no ponto, me ofereceu um pão de
queijo.
Sem dizer nada, apenas
estendeu a mão.
O gesto foi pequeno,
quase banal — mas naquele instante senti que havia mais vida ali do que em
muitas metas ou discursos motivacionais.
Talvez a vida seja isso: uma
sucessão de pequenos gestos que nos lembram que estamos juntos nesse mistério.
Viktor Frankl e a
descoberta do sentido
O psiquiatra austríaco Viktor
Frankl, sobrevivente de campos de concentração, escreveu em Em busca de
sentido que a vida nunca deixa de ter significado, mesmo diante do
sofrimento.
Para ele, o ser humano é
movido não pelo prazer ou pelo poder, mas por uma “vontade de sentido”.
Não se trata de inventar um propósito, e sim de descobrir o que já está
presente — mesmo em situações simples ou dolorosas.
“Quem tem um porquê
enfrenta quase qualquer como.” — Viktor Frankl
A ilusão do grande
propósito
Vivemos em uma época em
que todos buscam um propósito épico:
a carreira perfeita, a viagem transformadora, o amor que vai justificar tudo.
Mas o sentido, se existe,
é tímido.
Ele aparece no cuidado com uma planta que floresce, na risada que
escapa no meio do caos, na conversa breve com alguém cansado demais para
falar.
A vida cochicha o que
realmente importa — e o curioso é que quase nunca é algo extraordinário.
Três caminhos para
encontrar o sentido
Frankl dizia que o
sentido pode ser encontrado em três dimensões:
- No trabalho,
quando fazemos algo com amor;
- No amor,
quando nos entregamos de verdade;
- No sofrimento,
quando damos uma resposta digna ao inevitável.
Isso significa que até o
que parece insignificante pode conter grandeza, desde que vivido com
presença.
Estar presente é um ato
filosófico
Talvez o que mais falte
hoje seja presença — não a física, mas aquela atenção tranquila que
acolhe o instante.
Quando conseguimos estar de corpo e alma no que fazemos, até varrer o chão
pode ser um ato filosófico.
A vida deixa de ser uma
lista de tarefas e volta a ser o que sempre foi: um convite para perceber.
Conclusão: não busque o
sentido, viva-o
O sentido da vida não
está num destino distante, mas no modo como olhamos o agora.
Não é algo a ser encontrado, e sim algo que se revela quando paramos de
correr atrás dele.
Quem sabe o segredo não
seja procurar o sentido da vida,
mas permitir que a vida faça sentido através de nós.