Entre o Ideal e o Homem Real
Costumo
pensar que, se colocássemos dez pessoas para definir o que é “justiça social”,
teríamos pelo menos onze respostas diferentes. O mesmo acontece quando se fala
em comunismo e socialismo. Termos que, no cotidiano, se misturam
nas conversas de bar, nos debates políticos e até nas aulas de história, mas
que carregam universos distintos — ainda que ligados por um mesmo fio: o desejo
humano por igualdade.
Falar
sobre comunismo e socialismo não é apenas discutir sistemas econômicos, mas
mergulhar em visões de mundo, em tentativas de responder à pergunta que
acompanha a humanidade desde Platão: como organizar a vida em comum? A
filosofia e a sociologia, nesse sentido, nos ajudam a enxergar além das
caricaturas e dos slogans.
1.
O sonho da igualdade e o despertar da consciência
O
socialismo, em sua origem, é menos uma fórmula política e mais um sentimento
moral. Surge como crítica à desigualdade produzida pela Revolução Industrial.
Karl Marx e Friedrich Engels, em O Manifesto Comunista (1848),
diagnosticam que o capitalismo cria uma classe dominante que concentra os meios
de produção e uma classe trabalhadora reduzida à força de trabalho. A
desigualdade, para eles, não é um desvio do sistema, mas seu próprio motor.
Marx
não sonhava com a igualdade no sentido abstrato, mas com a superação da
alienação — o rompimento da distância entre o homem e o fruto de seu trabalho.
O comunismo seria, então, o estágio final, onde o trabalho se tornaria
expressão livre da vida humana e não uma imposição para a sobrevivência.
Durkheim,
por outro lado, via a questão social de outro modo. Para ele, em Da Divisão
do Trabalho Social (1893), a coesão social é essencial. O problema não está
apenas na desigualdade, mas na falta de solidariedade orgânica — o
enfraquecimento dos laços que unem os indivíduos. Durkheim olhava o socialismo
com simpatia moral, mas acreditava que a mudança deveria ocorrer por meio da
reforma e da educação, não pela revolução.
2.
Entre o ideal e o real: a tensão da utopia
O
filósofo Ernst Bloch chamava o socialismo de princípio esperança. Para
ele, as utopias não são ilusões, mas forças mobilizadoras que impulsionam a
história. O comunismo, nesse sentido, seria menos uma realidade concreta do que
uma direção ética: o horizonte de uma sociedade sem exploração.
Mas
a utopia, quando transformada em dogma, corre o risco de tornar-se seu
contrário. Hannah Arendt observou que os regimes comunistas do século XX, ao
tentar realizar o “homem novo”, acabaram esmagando o próprio homem real —
aquele que erra, duvida e pensa. Ela lembra que a liberdade política, a
capacidade de agir e pensar coletivamente, não pode ser sacrificada em nome de
uma igualdade abstrata.
3.
A sociedade contemporânea e o eco das promessas
Hoje,
quando falamos de socialismo ou comunismo, não falamos mais apenas de
propriedade e produção, mas de dignidade, acesso e pertencimento. A lógica
neoliberal — com sua crença na autorregulação do mercado e no sucesso
individual — reacendeu a discussão sobre o que significa viver em sociedade.
Zygmunt
Bauman, em Modernidade Líquida, diria que vivemos um tempo em que a
coletividade se dissolveu: “a insegurança é o preço da liberdade”. Nesse
contexto, o socialismo reaparece como nostalgia e o comunismo como espectro —
lembranças de um sonho que, de certo modo, continua assombrando as injustiças
do presente.
4.
Entre o café e a praça: o homem comum e o comum do homem
Penso,
por fim, que comunismo e socialismo só fazem sentido quando voltam à vida
cotidiana — quando se tornam perguntas sobre como nos tratamos, como dividimos
o tempo, o espaço e até a atenção. Num mundo em que a indiferença virou defesa
e o consumo virou critério de valor, falar em “comum” é quase revolucionário.
Talvez
o que Marx chamou de “fim da pré-história humana” não seja o desaparecimento do
capital, mas o despertar de uma consciência simples: perceber que não existimos
sozinhos. O socialismo é o reconhecimento de que a felicidade individual é
inviável numa miséria coletiva. E o comunismo, quando não é dogma, é apenas
isso levado ao extremo: a tentativa de fazer da vida um bem comum.