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domingo, 21 de dezembro de 2025

Espanto e Reverência


Como quem pensa alto, penso que há dias em que nada acontece — e, ainda assim, alguma coisa nos atravessa. Não é alegria, nem tristeza. É um silêncio com peso. A gente abre a janela, vê o céu fazendo o que sempre fez, e sente um leve desconforto: como isso continua existindo sem pedir explicação? É nesse intervalo estranho, entre o banal e o inexplicável, que moram o espanto e a reverência. Não como sentimentos raros, mas como modos de estar no mundo que desaprendemos a usar.

Vivemos treinados para reagir, não para nos espantar. Para dominar, não para reverenciar. O ensaio que segue é um convite a desacelerar o gesto automático e reaprender dois movimentos antigos do espírito: o espanto que abre, e a reverência que sustenta.

Desde Aristóteles sabemos — quase de cor, mas pouco de corpo — que a filosofia nasce do thaumázein, do espanto. Mas o que raramente se diz é que o espanto não nasce do extraordinário: ele nasce quando o ordinário falha em se explicar sozinho.

O espanto é uma fratura no hábito. É quando algo, sem fazer barulho, desarma nossas categorias.

No cotidiano, ele aparece de forma discreta:

  • quando uma criança faz uma pergunta óbvia demais (“por que as pessoas envelhecem?”) e nenhuma resposta funciona;
  • quando um pai percebe, de repente, que a voz do filho mudou;
  • quando alguém, no ônibus lotado, olha um rosto desconhecido e se dá conta de que ali há uma vida inteira inacessível.

O espanto não é ignorância; é lucidez súbita. Ele nos mostra que sabemos menos do que fingimos — e isso, paradoxalmente, nos torna mais atentos.

Mas o espanto, sozinho, é instável. Ele pode virar curiosidade superficial, consumo de novidade, ansiedade por mais estímulos. Para não se perder, ele precisa de um segundo gesto: a reverência.

A palavra reverência costuma causar desconforto moderno. Parece coisa de religião antiga, hierarquia rígida, obediência cega. Mas filosoficamente, reverenciar não é se diminuir — é reconhecer a medida do que não nos pertence.

Reverência é aceitar que nem tudo está à disposição da nossa vontade.

No dia a dia, ela se manifesta de modos quase invisíveis:

  • no cuidado ao entrar em um hospital, falando mais baixo sem que ninguém peça;
  • no respeito espontâneo diante de um idoso que não conhecemos;
  • no silêncio que se impõe quando alguém conta uma dor real.

Reverenciar é saber quando não transformar tudo em opinião, piada ou postagem. É conter o impulso de explicação total. Onde o espanto pergunta “o que é isso?”, a reverência responde: “talvez não seja tudo para mim”.

Aqui, espanto e reverência se encontram: o primeiro abre o mundo; a segunda impede que o fechemos rápido demais.

Nossa época sofre menos por falta de respostas e mais por saturação delas. Tudo é comentado, analisado, ranqueado. O mistério virou falha técnica; o silêncio, constrangimento.

O resultado é um mundo sem espanto e, portanto, sem reverência.

Se nada nos espanta, nada nos exige cuidado.

Isso aparece:

  • no consumo apressado de tragédias como se fossem notícias equivalentes;
  • na ironia constante diante de qualquer grandeza;
  • na incapacidade de permanecer diante de algo sem transformá-lo em conteúdo.

Sem espanto, perdemos a pergunta.

Sem reverência, perdemos o limite.

E sem ambos, a experiência empobrece: tudo é vivido, mas pouco é realmente encontrado.

Recuperar o espanto e a reverência não exige mudar de vida, mas mudar de ritmo. É uma ética do olhar lento.

Ela se ensaia em gestos simples:

  • olhar alguém falando sem antecipar a resposta;
  • aceitar que certos acontecimentos não “servem para nada”;
  • suportar a estranheza de não entender imediatamente.

Nesse sentido, o espanto não nos tira do mundo — ele nos devolve a ele. E a reverência não nos cala — ela nos ensina quando falar seria uma violência.

Talvez maturidade não seja acumular certezas, mas aprender onde colocá-las com delicadeza.

Espanto e reverência não são estados elevados reservados a místicos ou filósofos. São disposições esquecidas, sufocadas pela pressa e pela necessidade de controle.

Espantar-se é permitir que o mundo nos desinstale.

Reverenciar é não correr para se reinstalar no comando.

Entre um e outro, surge uma forma mais densa de presença: menos ansiosa por sentido, mais disponível para recebê-lo.

E talvez — só talvez — seja aí que a vida, sem fazer anúncio, volte a falar.

domingo, 9 de novembro de 2025

Classe Dominante

A sala de quem comanda

Outro dia, enquanto eu esperava no saguão de um prédio empresarial — daqueles com cheiro de carpete novo e café requentado — percebi algo curioso: há uma coreografia invisível entre quem entra e quem manda. O segurança aperta o crachá no peito, o estagiário olha o chão, o executivo fala alto ao telefone, como se o tom de voz também fosse um crachá simbólico. É ali, naquele pequeno teatro cotidiano, que a noção de classe dominante se revela — não apenas como um grupo de poder econômico, mas como uma cultura inteira que se expressa nos gestos, nas palavras, nas certezas.

Marx, claro, foi quem escancarou o termo: a classe dominante é aquela que controla os meios de produção e, por consequência, as ideias que circulam. “As ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”, ele escreveu. Ou seja, não basta deter o capital — é preciso também administrar o imaginário. Não é só o dinheiro que compra o luxo; compra-se também o discurso, a moral, o gosto e até o senso de justiça.

Pierre Bourdieu aprofunda essa visão ao mostrar que a dominação não se mantém apenas pela força, mas pela violência simbólica. Ela acontece quando os dominados aceitam, quase sem perceber, o jogo do dominador. É quando o trabalhador acredita que não lê porque “não nasceu pra isso”, ou quando a estudante pobre sente vergonha do próprio sotaque na universidade. O poder mais eficaz é aquele que não precisa se impor: ele se infiltra, educa o olhar e define o que é “natural”.

Max Weber, por sua vez, lembra que a dominação pode se legitimar de modos distintos — pela tradição, pelo carisma ou pela legalidade racional. Hoje, o poder se legitima sobretudo pelo discurso da competência: quem domina não se apresenta mais como “rico” ou “herdeiro”, mas como “eficiente”, “empreendedor”, “inovador”. A ideologia da meritocracia é o novo terno bem passado da classe dominante: limpa, elegante, e perfeitamente ajustada para esconder a origem das desigualdades.

Mas o palco da dominação mudou de cenário. Se antes ela se manifestava nas fábricas e nos escritórios, hoje ela se exibe nas redes sociais. O feed se tornou o novo saguão de poder — um espaço onde se performa sucesso, felicidade e autoridade. A classe dominante aprendeu a usar o algoritmo como ferramenta de distinção: quanto mais visibilidade, mais poder simbólico. É uma espécie de Bourdieu digital, em que o capital cultural se mede por seguidores, e o capital econômico se mascara de estilo de vida.

O curioso é que muitos dos que assistem a esse espetáculo virtual acreditam estar participando dele. Curtir é o novo ajoelhar; compartilhar, o novo acenar respeitoso. As redes, que prometiam democratizar a voz, acabaram amplificando o poder de quem já tinha palco. O discurso do “todos podem” esconde o velho mecanismo: só fala quem é ouvido, e só é ouvido quem se encaixa no padrão dominante. A dominação, agora, veste filtros e hashtags.

E mesmo diante dessa estrutura, a maioria de nós sonha em subir de classe — e raramente em mudar o jogo. Sonhamos em ter um cargo de chefia, não em questionar o porquê de haver tantos chefiados. Essa é talvez a vitória mais sutil da classe dominante: transformar o desejo de liberdade em desejo de ascensão.

No fundo, a dominação não é apenas um fato econômico, mas um fenômeno espiritual, como sugeriria N. Sri Ram: ela nasce de uma consciência que se crê separada. Enquanto houver quem se perceba como superior por natureza ou posição, haverá dominação. O desafio não é abolir as classes apenas na economia, mas também na percepção — perceber o outro não como degrau, mas como espelho.

E, voltando ao saguão do prédio, talvez seja ali, nas pequenas reverências do cotidiano — e agora também nos silêncios virtuais — que a dominação se sustenta. O crachá, o tom de voz, o número de curtidas, o medo de não “pertencer” — tudo isso compõe a liturgia do poder. A classe dominante não mora apenas nas coberturas: ela mora nas cabeças e nos algoritmos.

No Brasil, esse fenômeno assume cores próprias. A elite econômica, herdeira de uma estrutura colonial e patrimonialista, mantém seu poder não apenas pelo capital acumulado, mas pela influência sobre o discurso público — especialmente via mídia e política. Como diria Jessé Souza, em A elite do atraso, há um “consórcio simbólico” entre a elite financeira, a elite jurídica e os meios de comunicação, que naturaliza a desigualdade e transforma privilégios em virtudes. A classe dominante brasileira é mestre em reembalar o velho autoritarismo com vocabulário moderno: fala em “liberdade de mercado” enquanto mantém o povo cativo na dependência e no medo.

Vivemos, assim, uma forma tropical de dominação simbólica, em que o poder se mascara de competência e o privilégio se disfarça de mérito. O resultado é um país que acredita estar se modernizando, enquanto repete as hierarquias de sempre.

Talvez a verdadeira revolução comece quando, ao atravessar o saguão — físico, digital ou institucional —, deixarmos de abaixar os olhos.