No
mito, Sísifo empurra eternamente uma rocha até o topo da montanha. Quando está
quase lá, ela rola de volta. E ele recomeça.
Sempre
achei que o drama estivesse no esforço físico. Hoje percebo que está na
repetição.
A
nova montanha não é de pedra — é de atualização
Você
já reparou que nada mais termina?
Você
limpa a caixa de e-mails — chegam mais.
Organiza
a casa — desorganiza.
Bate
a meta — surge outra.
Atualiza
o currículo — o mercado muda.
A
vida virou uma versão infinita de “carregando…”.
Não
vivemos apenas trabalhando. Vivemos mantendo: mantendo relevância,
produtividade, aparência, performance emocional. Até o descanso virou tarefa
otimizada.
A
pedra contemporânea tem nome: manutenção da própria existência social.
O
absurdo segundo Camus — e além dele
O
filósofo Albert Camus escreveu que o verdadeiro problema filosófico é o
suicídio — ou seja, se a vida vale a pena diante do absurdo.
Para
ele, Sísifo é o herói do absurdo.
Não
porque vence a montanha.
Mas
porque sabe que ela não tem fim.
A
consciência transforma o castigo em revolta silenciosa.
Mas
talvez hoje o drama seja outro:
não
temos tempo nem de descer a montanha conscientes.
Estamos
distraídos.
A
distração como forma de anestesia
Enquanto
empurramos a pedra, ouvimos podcast de produtividade.
Enquanto
a pedra rola, abrimos redes sociais.
Enquanto
recomeçamos, comparamos nossa pedra com a dos outros.
E
aqui entra outro pensador fundamental: Byung-Chul Han.
Ele
diz que não vivemos mais numa sociedade da repressão, mas da performance. Não
há um deus nos condenando — nós mesmos nos exploramos.
Somos
ao mesmo tempo Sísifo e o Olimpo.
A
montanha não é imposta.
É
internalizada.
Cotidiano:
pequenas cenas sisifianas
- O profissional que trabalha o dia
inteiro e à noite faz cursos para “não ficar para trás”.
- A mãe ou pai que nunca sente que fez
o suficiente.
- O jovem que mede seu valor por
métricas digitais.
- O aposentado que descobre que até o
lazer precisa ser produtivo.
Nada
disso é dramático isoladamente. O problema é o eterno quase.
Quase
cheguei lá.
Quase
estabilizei.
Quase
estou satisfeito.
A
pedra sempre volta alguns centímetros antes do topo.
Uma
inversão inovadora: e se a pedra for nossa identidade?
Talvez
o erro seja imaginar que a pedra é externa — trabalho, dinheiro, obrigações.
E
se a pedra for o “eu ideal” que tentamos empurrar montanha acima?
A
versão mais magra.
Mais
bem-sucedida.
Mais
serena.
Mais
interessante.
Empurramos
uma imagem de nós mesmos esperando que, no topo, ela finalmente coincida com
quem somos.
Mas
identidade não é topo. É travessia.
O
instante secreto de Sísifo
Camus
dizia
que devemos imaginar Sísifo feliz.
Eu
acrescentaria: talvez ele sorria não no topo, mas no meio do caminho — quando
percebe que a pedra é pesada, sim, mas o passo é dele.
O
mundo atual nos convence de que sentido é resultado.
Talvez
sentido seja ritmo.
Empurrar
a pedra pode ser alienação.
Mas
pode ser também escolha lúcida.
Uma
pergunta para levar da cafeteria
Se
a pedra vai rolar de qualquer forma,
que
tipo de pessoa você se torna enquanto a empurra?
O
mundo contemporâneo talvez não seja trágico.
Talvez
seja apenas repetitivo.
E
a repetição, quando consciente, pode deixar de ser condenação
e
virar estilo de existência.
No
fundo, o mito não pergunta se a montanha tem fim.
Pergunta
se você está acordado enquanto sobe.

Nenhum comentário:
Postar um comentário