O silêncio como forma de resistência
Na
fila do banco, no elevador, ou no grupo de WhatsApp da família — o silêncio
sempre parece suspeito. Vivemos na era da presença obrigatória, do comentário
rápido, da opinião instantânea. Quem não se manifesta logo é tido como omisso,
quem hesita, como indeciso. Mas será que falar sempre é a melhor forma de
existir?
Às
vezes, silenciar é recusar o jogo. Não é ausência, é recusa ativa. É como se o
silêncio dissesse: "não vou dançar essa música que você está tocando,
porque já escutei demais o barulho do mundo." Nesse sentido, o
silêncio não é covardia, mas uma forma de resistência — e até de afeto.
O
filósofo francês Roland Barthes, em seu Fragmentos de um discurso
amoroso, fala do silêncio como a fala do enamorado que não sabe mais
como dizer o que sente. O silêncio, ali, é excesso, não falta. É quando a
linguagem falha por intensidade e não por fraqueza. Isso nos mostra que o
silêncio, em certos contextos, é mais expressivo que qualquer discurso.
Mas
vivemos tempos de inflação verbal. Tudo precisa ser nomeado, explicado,
documentado, viralizado. E nessa necessidade constante de falar, acabamos
dizendo cada vez menos. Palavras sem silêncio ao redor viram barulho. Não
pensam, não respiram.
Talvez
o maior gesto de liberdade hoje seja calar. Não para se ausentar do mundo, mas
para voltar a ele de outro modo. Escutar mais. Fazer menos barulho. Permitir
que as coisas digam o que têm a dizer — sem a nossa interferência imediata.
No
fundo, o silêncio não é só ausência de som. É um espaço fértil onde pensamentos
crescem. É ali que a alma começa a falar. E talvez, só talvez, seja ali que a
gente começa realmente a escutar.