Quando a pele da sociedade troca de lugar com a alma
Outro
dia, esperando o ônibus, percebi algo curioso. As pessoas não estavam apenas
olhando para o celular — elas viviam dentro dele. Era como se o ponto de
ônibus fosse apenas um cenário provisório, uma pausa entre dois mundos
digitais. De repente, pensei: e se o que estamos chamando de “mudança social”
já não for mais uma simples transformação, mas uma mutação? Algo mais
profundo, quase biológico, em que o tecido da vida coletiva se reorganiza em
outro código?
Mutação
social não é apenas troca de valores, modas ou hábitos. É quando a estrutura de
sentir e pensar de uma época muda de tal forma que a própria ideia de “humano”
precisa ser revista. Foi isso que Michel Foucault tentou mostrar quando
analisou como o homem moderno nasceu no século XVIII como uma figura de
discurso, destinada um dia a “desaparecer como um rosto de areia na beira do
mar”. A mutação, para ele, acontece nas condições do saber, nas formas pelas
quais o sujeito se reconhece como parte do mundo. O que muda não é só o
comportamento — é o campo de possibilidades do pensamento.
Hoje,
vivemos outra dessas mutações. Zygmunt Bauman chamou o nosso tempo de
“modernidade líquida” — uma era em que nada permanece sólido por muito tempo.
Os vínculos escorrem, as identidades se dissolvem, e as instituições se adaptam
à velocidade das conexões. O que antes era base (família, trabalho, religião)
se tornou plataforma. Cada um é um projeto em atualização constante, e o
sentido da vida parece depender da última versão disponível.
Mas
há também uma dimensão mais sutil. Edgar Morin diria que vivemos uma metamorfose
civilizacional. Mutação não é apenas desintegração, mas também criação — a
possibilidade de uma nova forma de solidariedade, mais complexa, mais
consciente da interdependência planetária. Morin fala de uma “via para o
futuro” que não seja apenas técnica, mas ética: uma humanidade capaz de se
reinventar sem perder a noção de limite.
Contudo,
se olharmos para o Brasil, a mutação social ganha uma coloração particular. Marilena
Chaui observa que a sociedade brasileira é atravessada por um tipo de
ideologia que se apresenta como natural — uma ideologia que disfarça
desigualdades sob a aparência de cordialidade. Para ela, o Brasil vive um
“autoritarismo social” disfarçado de harmonia, no qual a obediência, a
hierarquia e o privilégio se reproduzem sem precisar de coerção explícita.
Assim, mesmo quando as formas sociais parecem mudar — com novos discursos de
cidadania, liberdade ou inclusão — as estruturas simbólicas do poder
permanecem.
Chaui
nos ajuda a perceber que nem toda mutação é emancipatória. Há mutações que
apenas atualizam velhas formas de dominação, agora travestidas de modernidade
digital ou de meritocracia neoliberal. Quando o discurso da “autonomia” se
transforma em obrigação de “empreender-se a si mesmo”, o indivíduo se torna
cúmplice da própria exploração — o que Byung-Chul Han chama de autoexploração
voluntária.
Nesse
sentido, a mutação social contemporânea pode ser vista como uma contradição
viva: produzimos discursos de liberdade enquanto ampliamos a servidão
invisível; multiplicamos as vozes enquanto reforçamos o silêncio estrutural.
Como diria Chaui, o desafio está em “transformar a mudança em transformação”,
ou seja, fazer com que as novas formas de vida não apenas se adaptem ao poder,
mas criem novas possibilidades de experiência e de consciência.
Talvez
toda sociedade precise passar por mutações para continuar viva. Como o corpo,
que se adapta, se regenera e, às vezes, precisa adoecer para mudar. O perigo
está em confundir mutação com progresso. Pois nem toda evolução é ascensão — às
vezes, é apenas fuga.
E,
enquanto o ônibus finalmente chega, percebo que essa mutação social é como a
própria viagem: ninguém sabe ao certo o destino, mas todos estão em movimento,
com o olhar preso à tela e o corpo na estrada — acreditando que seguir é o
mesmo que mudar.