O Humano Entre Lógica e Afeto
A
vida nos ensina cedo que não dá para calcular tudo. Podemos planejar uma viagem
milimetricamente, mas a lembrança mais marcante pode ser o pôr do sol
inesperado, ou a conversa com um desconhecido no ônibus. Podemos escolher uma
carreira pelo salário, mas sentir que algo essencial falta. É nesse intervalo
entre o previsível e o vivido que percebemos: a razão, sozinha, não basta.
No
cotidiano brasileiro, isso se expressa de muitas formas. O estudante que segue
a rota segura de um concurso público, mas descobre que sua alegria está na
música; o casal que, “racionalmente” compatível, perde-se porque não há mais
ternura; a mãe que, contra todos os conselhos técnicos, insiste em confiar na
intuição sobre o cuidado do filho — e está certa. O excesso de lógica, nesses
casos, sufoca o que é propriamente humano: a sensibilidade.
O
filósofo brasileiro N. Sri Ram, em sua obra A Busca do Bem-Estar
(1954), lembrava que a sabedoria não nasce apenas do pensamento discursivo, mas
da integração entre mente e coração. Para ele, o intelecto é importante, mas só
ganha profundidade quando iluminado por uma visão interior que inclui compaixão
e empatia. A verdadeira clareza não está no raciocínio frio, mas na percepção
que reconhece o outro como parte de si.
Esse
ponto é essencial: a razão nos ajuda a organizar o mundo, mas é o afeto que nos
conecta a ele. Sem compaixão, a ciência pode se tornar ferramenta de
destruição; sem imaginação, a técnica vira rotina vazia; sem amor, a lógica se
reduz a cálculo de interesses.
“Razão
não basta” não é um convite ao irracionalismo, mas à completude:
reconhecer que somos feitos de intuição, desejo, memória, fé e corpo. Pascal
dizia que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”; Sri Ram
acrescentaria que é justamente nessa união de coração e mente que o ser humano
encontra sua verdadeira liberdade.
Assim,
talvez a sabedoria não seja escolher entre pensar ou sentir, mas saber quando
deixar que um complete o outro. Porque viver, afinal, é mais do que raciocinar:
é também deixar-se atravessar pelo imprevisto, pelo gesto que foge à lógica e,
ainda assim, faz todo sentido.
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