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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Das Mundanidades

Um elogio ao comum

Há dias em que tudo parece ser apenas mais um dia. O café tem o mesmo gosto, os passos seguem as mesmas calçadas, os rostos se repetem no espelho e nas ruas. O tédio sussurra que nada acontece, como se a vida estivesse suspensa entre um grande evento que já passou e outro que ainda não chegou. No entanto, é justamente aí — nesse “nada” — que as mundanidades florescem. E talvez seja nelas que a vida realmente acontece, mesmo que silenciosamente.

As mundanidades são os gestos automáticos, os diálogos triviais, os compromissos repetidos, as tarefas banais. São o pano de fundo da existência. Mas em vez de vê-las como restos da vida, por que não entendê-las como sua estrutura essencial? O filósofo francês Georges Perec escreveu sobre a importância de observar “o infraordinário” — o que normalmente não prestamos atenção porque está sempre ali. Para ele, a repetição não é sinônimo de insignificância, mas de uma textura do viver que merece ser decifrada.

Sociologicamente, as mundanidades são os tijolos do cotidiano. Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano, aponta que os indivíduos, mesmo dentro de sistemas massivos e opressores, “inventam” seus modos de viver por meio de pequenas práticas cotidianas. Escolher um caminho alternativo para o trabalho, colocar açúcar no café com um gesto específico, ou conversar com o vizinho no portão: tudo isso pode ser uma forma de resistência, de afirmação de subjetividade. As mundanidades, longe de serem neutras, revelam o modo como cada um negocia seu lugar no mundo.

Além disso, há uma dimensão ética nessa atenção ao banal. Simone Weil propôs que o verdadeiro amor ao outro começa pela atenção plena — e essa atenção só pode se exercitar nas pequenas coisas. Notar o cansaço no rosto de quem serve o almoço, escutar de fato o que alguém diz no ônibus, agradecer sem pressa. Tudo isso é político, é espiritual, é profundamente humano.

Em tempos de espetacularização da vida, em que só se valoriza o que é grandioso, disruptivo ou viral, prestar atenção às mundanidades é quase um ato subversivo. Viver o comum com presença é dizer que a existência não precisa justificar-se por grandes feitos. Ela basta. O prato lavado com esmero, a música que toca sempre às 18h, o cheiro do pão na padaria da esquina — tudo isso compõe uma ética da presença.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti dizia que “a banalidade é o que nos ancora ao mundo”. Ela nos dá o chão de onde partimos e para onde sempre voltamos. E talvez, no fim das contas, o extraordinário não seja o oposto do mundano, mas aquilo que emerge quando o mundano é finalmente visto.

Das mundanidades, portanto, não como desprezo pelo brilho da vida, mas como uma forma de perceber que o brilho está justamente na poeira das coisas simples. O comum não é o que sobra da vida — é o que a sustenta. E talvez, ao compreendê-lo com profundidade, possamos finalmente viver com mais presença, mais delicadeza e mais verdade.


sábado, 1 de julho de 2023

A Invenção do Cotidiano de Michael De Certeau

Michael De Certeau (1925-1986) foi um filósofo, teórico cultural e historiador francês conhecido por suas contribuições nos campos da teoria social, estudos culturais e teoria literária. Sua obra mais famosa é "A invenção do cotidiano: artes de fazer" (1980), onde ele examina as práticas cotidianas das pessoas comuns e as formas pelas quais elas produzem significado em suas vidas.

Inteligência brilhante e não conformista, alimentou milhares de curiosidades, com sólida formação em Filosofia, Letras Clássicas, História e Teologia. Pesquisador da história dos textos místicos desde a Renascença até a era clássica, interessa-se não só pelos métodos da Antropologia e da Linguística, como também pela Psicanálise.

De Certeau acreditava que a vida cotidiana era composta por táticas individuais, uma vez que as pessoas comuns operam dentro das estruturas sociais e culturais estabelecidas. Ele argumentava que, apesar da aparente dominação exercida pelas instituições e sistemas, os indivíduos têm a capacidade de usar "táticas" para negociar, resistir e subverter essas estruturas em suas vidas diárias.

Em sua análise, De Certeau distingue entre duas formas de práticas: estratégias e táticas. As estratégias são as ações planejadas e sistemáticas realizadas pelas instituições e poderes dominantes para impor sua vontade e obter controle sobre o espaço social. Por outro lado, as táticas são as ações criativas e adaptativas dos indivíduos que operam dentro dessas estruturas. As táticas são improvisadas, baseadas em recursos disponíveis e podem incluir comportamentos como apropriação, desvio, reinterpretação e uso criativo do espaço e dos objetos.

Para De Certeau, as práticas cotidianas eram uma forma de resistência e liberdade em meio às estruturas opressivas. Ele explorou essas ideias em diferentes contextos, incluindo a vida urbana, a produção cultural, a leitura e a escrita. De Certeau enfatizava a importância das práticas individuais para a criação de significado e a capacidade dos indivíduos de se apropriarem das estruturas dominantes e transformá-las de maneiras sutis, mas significativas.

Além de "A invenção do cotidiano: artes de fazer", outras obras importantes de De Certeau incluem "A escrita da história" (1975), onde ele examina os desafios e as limitações da escrita histórica, e "A cultura no plural" (1993), uma coletânea de seus ensaios sobre cultura, consumo e práticas cotidianas.

O pensamento de Michael de Certeau teve uma influência significativa nos estudos culturais, na teoria literária e em disciplinas relacionadas, oferecendo uma perspectiva crítica sobre o poder, a resistência e as práticas individuais na sociedade contemporânea. Sua abordagem enfatiza a importância das ações e experiências cotidianas, bem como a capacidade das pessoas comuns de redefinir e reinventar o mundo ao seu redor.

O livro “A Invenção do cotidiano; artes de fazer”


Certeau trabalha o fundamento básico do conceito cotidiano. Aborda a questão da linguagem comum, chegando à linguagem científica. Na prática do cotidiano trabalham autores como Freud, Wittgenstein, Foucault, Bordieux e Kant.

O livro mais importante de Michael de Certeau é geralmente considerado "A invenção do cotidiano: artes de fazer" (em inglês, "The Practice of Everyday Life"), publicado originalmente em 1980. Nesta obra, De Certeau examina as práticas cotidianas das pessoas comuns e suas táticas de resistência e subversão dentro das estruturas sociais e culturais.

"A invenção do cotidiano" é dividido em duas partes principais. A primeira parte, intitulada "Fazer", discute as práticas cotidianas e como os indivíduos, por meio de suas ações, são capazes de criar significado e negociar sua existência dentro de sistemas maiores. Ele explora a relação entre poder e resistência, examinando como as pessoas comuns utilizam táticas para se apropriar do espaço, redefinir as normas sociais e estabelecer uma identidade própria.

A segunda parte, intitulada "O saber do cotidiano", analisa a leitura e a escrita como práticas culturais. De Certeau discute como as pessoas interpretam e reescrevem textos culturais, tanto literários quanto não literários, para atender às suas necessidades e desejos individuais. Ele argumenta que a leitura e a escrita são atividades criativas e ativas, e que os leitores desempenham um papel ativo na produção de significado.

"A invenção do cotidiano" tem sido amplamente influente em diversas áreas acadêmicas, como estudos culturais, sociologia, antropologia e teoria literária. A obra de De Certeau oferece uma perspectiva crítica sobre o poder e a resistência nas práticas cotidianas, destacando a importância das ações individuais e a capacidade das pessoas comuns de redefinir e reinventar o mundo ao seu redor.

Com a critica também aprendemos

Embora "A invenção do cotidiano: artes de fazer" seja amplamente elogiado e considerado uma obra influente, também há algumas críticas e discussões em torno dela. Alguns críticos argumentam que De Certeau pode ter generalizado demais suas análises, ao tratar as práticas cotidianas como universalmente subversivas e como formas de resistência. Eles argumentam que nem todas as práticas cotidianas são necessariamente políticas ou desafiantes das estruturas dominantes. Essa crítica sugere que a abordagem de De Certeau pode simplificar demais a complexidade das práticas cotidianas e sua relação com o poder.

Outra crítica levantada é que De Certeau pode ter subestimado a importância das relações de poder em suas análises. Alguns argumentam que as táticas individuais descritas por De Certeau são limitadas em sua capacidade de desafiar efetivamente as estruturas de poder e que a obra não dá uma atenção suficiente à dimensão do poder nas práticas cotidianas.

Alguns críticos apontam que "A invenção do cotidiano" não lida adequadamente com as questões de gênero e classe social. Eles argumentam que as análises de De Certeau são frequentemente voltadas para as experiências masculinas de práticas cotidianas, deixando de lado as formas específicas em que mulheres e pessoas de diferentes classes sociais experienciam e negociam o cotidiano.

Outra crítica é que a obra de De Certeau pode enfatizar demais a agência individual, sem dar a devida atenção ao contexto social e estrutural em que as práticas cotidianas ocorrem. Alguns argumentam que a ênfase nas táticas individuais pode obscurecer as limitações e constrangimentos estruturais enfrentados pelas pessoas comuns.

Essas críticas não diminuem necessariamente o valor e a importância da obra de De Certeau, mas destacam áreas de debate e discussão em relação às suas análises. É importante considerar essas críticas como parte do diálogo acadêmico e continuar explorando e questionando as ideias apresentadas na obra, afinal até Platão foi criticado, o contraponto é uma outra forma de ver, portanto pode ser uma oportunidade de avançarmos ampliando o conhecimento.

 

Fonte:

Certeau, Michael De. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Traduzido por Ephraim Ferreira Alves. Editora Vozes; 22º edição (1 janeiro 2014)