Entrou
dezembro, vem chegando o final do ano e vou ficando mais introspectivo,
reflexivo, sinto que preciso me soltar mais, às vezes, sem perceber, acordo já
meio amarrado por dentro. Não é corda, não é nó — é uma sensação de que algo me
segura, mesmo quando tudo ao redor parece livre. Pode ser uma lembrança que
insiste em reaparecer, um medo antigo que se esconde atrás de um sorriso que
dou por educação, ou até uma expectativa que alguém plantou em mim e que, por
preguiça ou afeto, nunca tive coragem de arrancar. São essas pequenas forças
invisíveis que dão forma ao meu, ao nosso jeito de caminhar no mundo. E, num
café da manhã qualquer, entre goles de chimarrão ou um pão na chapa apressado,
a gente sente o peso dessas amarras íntimas mexendo com o rumo do dia.
Mas
o curioso é que, ao contrário das prisões externas — as que podemos apontar e
nomear —, as amarras íntimas se camuflam. São feitas de material emocional,
simbólico, psicológico. E é exatamente por isso que são tão resistentes.
O
que são as amarras íntimas?
Do
ponto de vista filosófico, podemos entender as amarras íntimas como
condicionamentos internos que moldam o comportamento, governam escolhas e
delimitam horizontes de ação. Elas são produzidas por:
- experiências passadas que deixaram
marcas duradouras;
- expectativas coletivas
internalizadas;
- afetos mal resolvidos;
- idealizações do que “deveríamos ser”;
- narrativas pessoais que nos contemos
tantas vezes que passaram a funcionar como destino.
Sartre
diria que essas amarras são formas de má-fé: maneiras de fugir da
própria liberdade, adotando identidades prontas e desculpas convenientes. Já Jung
chamaria isso de sombras não integradas, aspectos do eu que, rejeitados,
passam a atuar involuntariamente. E Foucault lembraria que ninguém
se vigia tão bem quanto quem internalizou o olhar do outro; isto é, as
amarras íntimas também são dispositivos disciplinares que atravessam o corpo, a
fala e até o desejo.
O
paradoxo das amarras
As
amarras íntimas são contraditórias: protegem e aprisionam.
Algumas
nos evitam recaídas emocionais, funcionam como aviso de perigo, preservam
identidade. Outras nos limitam, impedem movimento, sabotam relações, sufocam a
espontaneidade — aquilo que Bergson chamaria de élan vital,
a força da vida que quer crescer em direção ao novo.
É
como usar uma mochila antiga e pesada porque, de certa forma, ela guarda tudo
que somos. Soltar a mochila seria, de algum modo, soltar um pouco de nós
mesmos.
Cotidiano:
onde elas aparecem
- O colega de trabalho que sempre diz
“sim” para tudo, porque teme desapontar e, no fundo, teme ser esquecido.
- A pessoa que revisa mil vezes a
mensagem antes de enviar, presa à expectativa de ser impecável.
- Quem evita se apaixonar de novo
porque carrega a velha cicatriz como se fosse sentença.
- Aquela escolha profissional que não
faz sentido algum, mas que mantém viva a aprovação dos pais — mesmo que os
pais já nem se lembrem disso.
- A mania de não pedir ajuda, como se
vulnerabilidade fosse falha e não ponte.
Em
todos esses casos, a amarra não é visível, mas opera com eficiência.
De
onde vem tanta força?
As
amarras íntimas têm força porque se apoiam em três pilares:
- Afeto
– o laço emocional é o que mais fixa, para o bem e para o mal.
- Repetição
– o hábito cria autoridade, e o familiar se torna confortável.
- Narrativa
– quando contamos muitas vezes a mesma versão de nós mesmos, ela vira
identidade.
Paul
Ricoeur descreve a identidade como narrativa,
não como essência. Logo, as amarras íntimas são capítulos que repetimos a ponto
de virarem enredo principal, mesmo quando já não nos representam.
Como
soltá-las — ou, ao menos, afrouxá-las
Soltar
amarras íntimas não é um ato heróico, mas um processo delicado:
- Reconhecer:
nomear a amarra é permitir sua visibilidade.
- Interrogar:
perguntar se ela ainda serve a algo, ou se virou automatismo.
- Reescrever:
substituir a narrativa que nos prende por uma que nos mova.
- Praticar:
a liberdade exige treino; romper velhos hábitos pede paciência.
- Aceitar:
algumas amarras são parte constitutiva da história — não se cortam, mas se
transformam.
Como
diz N. Sri Ram em A Natureza do Ser, “o ser humano
floresce quando reconhece aquilo que o prende e, com serenidade, transforma a
prisão em passagem”. A amarra, vista com consciência, vira portal.
Quando
a amarra vira direção
No
fim das contas, as amarras íntimas não são apenas obstáculos: são também mapas.
Revelam onde fomos feridos, onde fomos moldados, onde fomos amados, onde ainda
precisamos aprender. São lembranças de que a alma tem peso, mas também tem
movimento.
Quando
olhamos para elas com honestidade, descobrimos que algumas podem ser deixadas
para trás. Outras pedem diálogo, cuidado, transfiguração.
E
então, no meio de um dia comum — na fila do mercado, no intervalo do trabalho,
num silêncio inesperado — percebemos que aquela velha amarra já não aperta
tanto. É o começo de uma forma nova de caminhar: menos pesada, mais nossa.


