Dizem que a frase "precisamos conversar" tem um poder desproporcional para causar calafrios. Quando alguém a pronuncia, parece que um relógio invisível começa a contar os segundos antes de algo inevitável: um ajuste de contas, um pedido de mudança, um desabafo adiado. Mas, se pararmos para pensar, toda relação – amorosa, familiar, profissional ou social – é uma negociação constante, um diálogo em aberto onde os termos nunca estão completamente fechados.
O
problema é que nem sempre estamos preparados para discutir a relação.
Preferimos acreditar que as coisas se ajustam sozinhas, que a convivência tem
um automatismo que dispensa revisões. No entanto, como já dizia Sartre, o outro
é um espelho incômodo. Ele nos revela coisas sobre nós mesmos que talvez
preferíssemos ignorar. Relacionar-se é, em parte, enfrentar a imagem que o
outro nos devolve.
O
Campo de Batalha Invisível
Na
filosofia, a relação entre o "eu" e o "outro" sempre foi um
problema fundamental. Martin Buber, por exemplo, distingue dois tipos de
relação: "Eu-Tu" e "Eu-Isso". A primeira é uma conexão
genuína, na qual o outro é visto como sujeito, e não apenas como um meio para
um fim. Já a segunda transforma o outro em objeto, algo que usamos ou
manipulamos. Quando uma relação se deteriora, é porque deslizamos de um
"Tu" para um "Isso". O outro deixa de ser um universo a ser
explorado e se torna apenas um papel funcional na nossa vida.
Mas
será que sempre conseguimos tratar o outro como um "Tu"? No
cotidiano, o que chamamos de “discutir a relação” muitas vezes não é um
encontro verdadeiro, mas um jogo de forças. Queremos convencer, justificar,
vencer. A relação vira um campo de batalha onde a escuta é sacrificada pelo
desejo de impor uma versão dos fatos.
A
Ilusão da Estabilidade
A
filosofia budista nos ensina que apego gera sofrimento. Isso vale para as
coisas e, talvez mais ainda, para as relações. Queremos que as pessoas sejam
consistentes, previsíveis, que cumpram o roteiro que imaginamos para elas. No
entanto, tudo muda o tempo todo. Os vínculos que construímos não são estruturas
fixas, mas processos dinâmicos.
Se
entendêssemos isso, discutir a relação não seria um momento de crise, mas um
ajuste natural, um realinhamento necessário. O problema é que, como sugere o
filósofo brasileiro Vilém Flusser, temos medo da incerteza. Preferimos
nos agarrar a fórmulas conhecidas do que aceitar que uma relação é, em
essência, um jogo de improviso.
Talvez
o verdadeiro desafio não seja evitar a DR, mas aprender a vê-la como parte do
processo de estar com o outro. A relação não é algo pronto, mas algo que se
refaz a cada dia. No fim das contas, discutir a relação é discutir a si mesmo –
e isso, convenhamos, nunca é fácil.
