Fiquei me perguntando por que muita gente prefere frequentar as mesmas praias que estão sempre super lotadas com desconforto de restaurantes lotados, dificuldade para estacionamento, hospedagens caríssimas, e poucas são as pessoas que preferem praias mais tranquilas com beleza exuberante, com espaço amplo para circular, passear e colocar seu guarda-sol, hospedagens com preço mais justo.
Pensei:
Porque, no fundo, as férias deixaram de ser só descanso — viraram também
narrativa, prova social e pertencimento.
Hoje,
viajar não é apenas ir a um lugar, é mostrar que se esteve lá. Lugares cheios
funcionam como certificados simbólicos: “se todo mundo quer, deve valer a
pena”. A multidão valida a escolha. O destino tranquilo, por outro lado, não
gera a mesma sensação de reconhecimento.
Há
também um fator psicológico curioso:
o
silêncio obriga a gente a ficar consigo mesmo. Já o lugar lotado distrai. Em
vez de escutar os próprios pensamentos, escutamos filas, música alta, conversas
alheias. Para muita gente, isso é mais confortável. (ainda bem que estão
proibindo caixa de som na beira da praia)
Outro
ponto é o medo invisível de estar “perdendo algo”. Quando vemos milhares indo
ao mesmo lugar, surge a impressão de que ali está a experiência verdadeira da
vida. O tranquilo passa a parecer incompleto, como se estivesse fora do roteiro
do mundo.
E
há ainda a estética da experiência:
lugares
cheios oferecem fotos reconhecíveis. Um fundo famoso, uma pose famosa, uma
lembrança facilmente traduzível em curtidas. O lugar calmo oferece algo mais
difícil de mostrar: sensação, silêncio, tempo dilatado — coisas que não cabem
bem numa tela.
No
fundo, não é que as pessoas rejeitem a tranquilidade.
Elas
rejeitam a invisibilidade que a tranquilidade traz.
Descansar
em paz não impressiona ninguém.
Mas
impressionar, hoje, cansa menos do que descansar.
Talvez
por isso os lugares mais cheios estejam lotados…
e
os mais vazios estejam, paradoxalmente, esperando por quem ainda lembra que
férias também podem ser um encontro consigo mesmo.