Vamos pensar o pessimismo antropológico não apenas como um ponto de vista sombrio sobre a humanidade, mas como uma lente crítica que tenta ver o ser humano despido das ilusões que ele construiu sobre si mesmo. É o olhar que, em vez de se encantar com a narrativa do “progresso” ou da “bondade natural”, decide observar o que permanece inalterado na nossa estrutura — talvez a violência latente, a competição silenciosa e a fragilidade moral.
Historicamente,
a antropologia sempre oscilou entre duas imagens do homem: o “bom selvagem” de Rousseau
e o “lobo do homem” de Hobbes. O pessimismo antropológico parte mais do
segundo: a ideia de que, sob a superfície civilizada, carregamos instintos
predatórios, que a cultura apenas canaliza, mas não apaga. O que nos salva, se
é que salva, não é a virtude inata, mas a contenção — leis, convenções, acordos
frágeis que evitam que nos devoremos.
O
antropólogo Marcel Mauss mostrou que até as trocas mais “generosas”
(como o potlatch) carregam disputa de prestígio e desejo de dominação.
Nesse sentido, o pessimismo antropológico não vê altruísmo puro; vê estratégia.
Da mesma forma, Claude Lévi-Strauss observou que, apesar da diversidade
cultural, há constantes estruturais na mente humana, e entre elas está a
propensão a criar hierarquias, mitos de superioridade e exclusão do “outro”.
Mas
o pessimismo aqui não é puro niilismo — é, paradoxalmente, uma forma de
lucidez. Schopenhauer, no campo filosófico, sugeriu que viver é
essencialmente sofrer, e que boa parte das nossas ações visa aliviar ou
disfarçar essa dor. A antropologia pode dialogar com ele: as culturas, mesmo as
mais elaboradas, talvez não passem de arquiteturas para administrar a
frustração inevitável da existência.
No
cotidiano, esse pessimismo se revela de forma banal: no trânsito, onde a
cortesia se dissolve ao primeiro atraso; nas redes sociais, onde o “debate”
degenera em humilhação; na política, onde a cooperação cede espaço ao cálculo
individual. O antropólogo pessimista não se surpreende — apenas coleta dados
para confirmar que a “natureza humana” talvez seja menos maleável do que
gostaríamos.
O
escritor brasileiro Nélson Rodrigues dizia que “o subdesenvolvimento não
se improvisa; é obra de séculos”. Adaptando a frase, poderíamos dizer: o
egoísmo não é acidente, é estrutura. O pessimismo antropológico parte
exatamente dessa consciência: não espera milagres éticos da humanidade, e talvez,
justamente por isso, esteja mais preparado para pensar soluções realistas.
Assim,
este olhar não é convite ao desespero, mas ao abandono da ingenuidade. É
aceitar que, se quisermos mudar algo, não podemos contar com a súbita
iluminação moral coletiva, e sim com mecanismos concretos que disciplinem o que
de mais arcaico carregamos. É a antropologia não como ode à diversidade humana,
mas como manual para lidar com o que de inevitável há nela.
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