O Olho que Engana e o Mundo que Foge
A
visão costuma ser tratada como o mais confiável dos sentidos. É a primeira
prova que apresentamos para atestar algo: “Eu vi com meus próprios olhos”.
No entanto, o ato de ver é atravessado por incoerências sutis — e às vezes
cruéis — que revelam que enxergar não é sinônimo de conhecer.
O
filósofo brasileiro José Arthur Giannotti, ao refletir sobre percepção e
linguagem, nos lembra que não vemos as coisas “nuas”, mas sempre filtradas por
categorias, expectativas e hábitos. O olho não é uma câmera objetiva, mas um
intérprete apressado. É por isso que duas pessoas podem presenciar o mesmo
acidente e descrever cenas diferentes: o que a visão captou foi imediatamente
moldado por memórias, medos e interesses.
No
cotidiano, essa incoerência aparece nos gestos mais simples. Ao procurar as
chaves que estão “bem na frente”, passamos os olhos várias vezes pelo lugar,
mas não as vemos — até que, de repente, elas “surgem” no campo visual. Não foi
mágica: foi o cérebro ignorando informações que, no momento, julgou
irrelevantes. O mesmo vale para encontros: um amigo passa na rua, a dois metros
de distância, e só depois de alguns segundos nos damos conta de que era ele. A
visão não falhou no sentido físico; falhou na coerência entre dado e
interpretação.
Há
também incoerências mais profundas, quando o que vemos contradiz o que
acreditamos. O pôr do sol, por exemplo, parece indicar que o sol se move e a
Terra está parada. Milênios de ciência não mudam a impressão imediata — e,
nesse caso, vemos o falso com mais nitidez que o verdadeiro.
Giannotti
nos convidaria a assumir essa instabilidade não como fraqueza, mas como
abertura. Se a visão é incoerente, é porque o mundo é mais complexo do que um
único ponto de vista pode captar. Assim, o olho que engana também é o olho que
possibilita: o erro nos força a interrogar o que julgávamos óbvio.
Talvez
o maior risco não seja a incoerência em si, mas a confiança cega na visão como
juiz absoluto. Ao esquecer que ver é sempre interpretar, caímos na
armadilha de tomar imagens — e narrativas visuais — como verdades sólidas. Na
era das telas e das manipulações digitais, essa ingenuidade se torna ainda mais
perigosa.
O
olho, afinal, não nos entrega o mundo. Ele nos entrega um esboço, que
completamos com memória, desejo e imaginação. É nessa mistura, incoerente e
fascinante, que vivemos.
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