Uma Forma Ignóbil de Existir
Um
ensaio filosófico informal sobre a ausência íntima
Tem
dias que a gente se pega no automático. Já são quatro da tarde, e você nem sabe
dizer o que sentiu desde que acordou. O corpo foi, as tarefas foram feitas,
talvez até tenha sorrido ou se irritado — mas não estava lá. Estava onde,
então? É como se uma parte de nós tivesse ficado de fora do próprio dia. Não
por distração apenas, mas por ausência. Uma ausência funda, que não se resolve
com um café forte nem com um banho demorado. Isso tem nome: esquecimento de si.
Isto me lembra da tarde de domingo.
Parece
inofensivo. A gente se adapta, funciona, entrega. Mas há algo de ignóbil
nisso. Não no sentido moralista da palavra, mas no sentido de degradação
silenciosa da dignidade de estar vivo e presente em si mesmo.
O
esquecimento de si como vício contemporâneo
Vivemos
tempos em que lembrar-se de si é quase um luxo. Entre notificações, prazos e
expectativas alheias, ser alguém virou mais urgente do que estar consigo.
A sociedade do desempenho — como bem analisou Byung-Chul Han — exige que
cada um se transforme em produto e gestor de si mesmo. A performance substitui
a presença. A pressa ocupa o lugar do pensamento. O “eu” vira uma figura de
marketing.
E,
nessa lógica, o esquecimento de si não é apenas um efeito colateral. Ele é um
modo de viver estimulado. A cada vez que evitamos o silêncio, que trocamos
uma inquietação íntima por um rolar infinito de tela, que vestimos um papel
para agradar ou para sobreviver, estamos praticando esse esquecimento. E o mais
perigoso: estamos nos acostumando a ele.
Ignóbil:
a erosão da dignidade interna
A
palavra ignóbil, do latim ignobilis, carrega a ideia de algo sem
nobreza, sem valor reconhecido. Esquecer-se de si é isso: tornar-se
estrangeiro da própria história, viver aquém do que se poderia ser, sem
sequer notar.
Nietzsche
dizia que “tornar-se quem se é” exige coragem. Ou seja, ser fiel a si
mesmo não é espontâneo nem simples — é um processo árduo, cheio de perdas e
rupturas. Por isso mesmo, o esquecimento de si é uma forma de covardia
invisível: cedemos à facilidade de viver no reflexo do que esperam, ao invés
de no brilho torto do que somos.
Há
uma espécie de indiferença que vai se instalando, como poeira sobre móveis que
antes brilhavam. E quando vemos, aquela vitalidade íntima foi embora. O pior é
que, por fora, nada parece errado. Continuamos eficientes, funcionais,
sociáveis. Só que o centro ficou oco.
O
abismo e a superfície
É
possível viver na superfície durante anos — repetir opiniões de outros, ocupar
cargos que não dizem nada, cumprir rotinas como quem segue um roteiro que não
escreveu. Mas o abismo que somos não desaparece só porque é ignorado.
Ele apenas deixa de ser visitado. E o que não é visitado — apodrece ou se
revolta.
O
filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia: “Eu sou eu e minha
circunstância.” Mas quando esquecemos de nós, sobra só a circunstância.
Somos a roupa que usamos, o trabalho que temos, o que postamos. E essa
dissociação cobra um preço: a perda da inteireza. Não há pior solidão do que não
estar consigo mesmo, mesmo cercado de gente.
O
retorno ao si: um gesto revolucionário
O
oposto do esquecimento de si não é narcisismo, nem uma jornada mágica de
autoconhecimento vendido em cursos online. É mais simples, mais sutil e muito
mais profundo. Trata-se de estar atento. Simone Weil dizia que “a
atenção pura é oração”. Estar atento ao que sentimos, ao que pensamos, ao
que nos atravessa, é uma forma de resgate espiritual, ainda que não
religioso.
N.
Sri Ram, pensador da tradição teosófica, afirmava que “a
alma só se reconhece em momentos de quietude”. E esses momentos estão cada
vez mais raros. Mas são neles que o “eu” reaparece. Que lembramos que temos
escolhas. Que percebemos que nem tudo precisa ser feito do jeito que o mundo
quer.
Talvez
um ritual simples já seja suficiente: caminhar sem distrações, escrever o que
se sente, fazer uma pausa antes de aceitar um convite, perguntar-se “isso é
mesmo meu desejo?”. São gestos que parecem pequenos, mas são revolucionários
numa era de dispersão.
Reencontrar
a nobreza perdida
Esquecer-se
de si é viver com dignidade emprestada. É funcionar sem alma. E isso, mais do
que trágico, é ignóbil. Não porque nos torna maus — mas porque nos torna
ausentes da única coisa que realmente nos pertence: a presença viva em nós
mesmos.
Reencontrar-se
não é fácil. Mas é possível. Talvez com menos barulho. Com menos pressa. Com
menos máscaras. Com mais verdade, mesmo que ela assuste. Porque só quem se
lembra de si pode, um dia, ser inteiro.

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