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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

As Quimeras

Entre o Desejo e a Realidade

Desde a antiguidade, a quimera figura como uma criatura fantástica, composta por partes distintas — leão, cabra, serpente — símbolo da mistura impossível, da fantasia que ultrapassa a realidade concreta. Mas o que acontece quando refletimos sobre as quimeras não como monstros mitológicos, mas como metáforas para os anseios humanos? E se nossas próprias quimeras forem as imagens híbridas formadas por desejos conflitantes e aspirações inatingíveis, projetadas no horizonte da existência?

O filósofo francês Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, nos convida a entender a imaginação como uma potência criadora, um modo pelo qual o ser humano transcende sua condição finita. A quimera, assim, não é mera ilusão ou engano — é uma expressão do desejo humano pelo possível, um símbolo da criatividade que impulsiona o movimento da vida para além do dado.

No entanto, essa potência imaginativa carrega uma tensão profunda: ao mesmo tempo que nos impulsiona, ela pode gerar frustração, pois o real dificilmente acolhe inteiramente a complexidade dos nossos sonhos híbridos. A quimera se torna, portanto, uma ponte e uma lacuna — um convite para ousar, e um alerta para a ilusão.

Pensando na vida cotidiana, cada indivíduo vive suas quimeras internas: projetamos versões idealizadas de nós mesmos, aspiramos a relações, profissões, mundos que misturam partes reais e inventadas. Ao abraçar essa complexidade, reconhecemos que a existência não é linear nem puramente racional, mas um emaranhado de fantasias e esforços que constroem nossa singularidade.

Assim, a lição das quimeras talvez resida no equilíbrio entre nutrir o sonho e confrontar a realidade, entre deixar-se levar pela imaginação e saber voltar os pés para o chão. Como Bachelard sugere, a imaginação não é fuga, mas criação — um espaço onde a alma se reinventa.


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