Entre o Desejo e a Realidade
Desde
a antiguidade, a quimera figura como uma criatura fantástica, composta por
partes distintas — leão, cabra, serpente — símbolo da mistura impossível, da
fantasia que ultrapassa a realidade concreta. Mas o que acontece quando
refletimos sobre as quimeras não como monstros mitológicos, mas como metáforas
para os anseios humanos? E se nossas próprias quimeras forem as imagens
híbridas formadas por desejos conflitantes e aspirações inatingíveis,
projetadas no horizonte da existência?
O
filósofo francês Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, nos
convida a entender a imaginação como uma potência criadora, um modo pelo qual o
ser humano transcende sua condição finita. A quimera, assim, não é mera ilusão
ou engano — é uma expressão do desejo humano pelo possível, um símbolo da
criatividade que impulsiona o movimento da vida para além do dado.
No
entanto, essa potência imaginativa carrega uma tensão profunda: ao mesmo tempo
que nos impulsiona, ela pode gerar frustração, pois o real dificilmente acolhe
inteiramente a complexidade dos nossos sonhos híbridos. A quimera se torna,
portanto, uma ponte e uma lacuna — um convite para ousar, e um alerta para a
ilusão.
Pensando
na vida cotidiana, cada indivíduo vive suas quimeras internas: projetamos
versões idealizadas de nós mesmos, aspiramos a relações, profissões, mundos que
misturam partes reais e inventadas. Ao abraçar essa complexidade, reconhecemos
que a existência não é linear nem puramente racional, mas um emaranhado de
fantasias e esforços que constroem nossa singularidade.
Assim,
a lição das quimeras talvez resida no equilíbrio entre nutrir o sonho e
confrontar a realidade, entre deixar-se levar pela imaginação e saber voltar os
pés para o chão. Como Bachelard sugere, a imaginação não é fuga, mas criação —
um espaço onde a alma se reinventa.
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