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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Absenteísmo Metafísico

Reflexão sobre a Ausência em Si

Às vezes a gente está presente — mas falta. Não fisicamente, que isso a cadeira confirma. Falta de outro jeito, mais fundo. Fica uma espécie de sombra, uma presença que não se reconhece, como se o próprio ser tivesse faltado ao chamado. Você responde “presente” na chamada da vida, mas alguma coisa em você parece não ter vindo. É sobre esse tipo de ausência que se fala aqui: o absenteísmo metafísico.

Esse termo poderia soar estranho, mas descreve um fenômeno cotidiano: viver sem se sentir dentro da própria existência. Há quem trabalhe, ande, converse, e até ame — tudo isso com uma espécie de “piloto automático ontológico”. O ser se desconecta de si, como se estivesse terceirizando sua presença ao mundo. É como morar numa casa onde as luzes estão acesas, mas ninguém parece estar em casa.

O filósofo Martin Heidegger ajuda a iluminar esse vazio com sua ideia de inautenticidade — um modo de ser em que o indivíduo vive de forma impessoal, guiado pelas convenções do "se": “se faz assim”, “se pensa assim”, “se espera isso”. Nesse estado, o sujeito não está propriamente ausente do mundo, mas ausente de si mesmo — e talvez isso seja ainda mais radical.

O absenteísmo metafísico é essa espécie de não comparecimento do ser à própria vida. Não é depressão, nem alienação no sentido estrito — é mais como um deslocamento sutil do eu, uma falta de gravidade interior. Você está aqui, mas a essência não encostou os pés no chão.

A consequência disso é viver por procuração, por reflexo dos outros, por espelhos rachados. E quando finalmente se percebe essa ausência, o susto é grande: como posso estar vivo, e mesmo assim não estar? A resposta não vem fácil. Mas talvez comece quando, em vez de tentar voltar para si, você se pergunta com honestidade: “mas quem, afinal, sou eu que deveria estar aqui?”

Heidegger dizia que só no confronto com a finitude é que nos tornamos autênticos. Talvez o antídoto para o absenteísmo metafísico seja esse: reconhecer que nossa presença é sempre uma escolha. Escolher estar — não só no corpo, mas no espírito, na palavra, no gesto. E que, às vezes, só o silêncio mais honesto pode trazer o ser de volta do exílio.


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