O Mundo que Cabe nas Palavras
Toda
vez que tentamos descrever a realidade, inevitavelmente a moldamos. O que
dizemos sobre o mundo nunca é o próprio mundo, mas uma versão filtrada,
recortada e traduzida para caber nas estruturas da linguagem. A filósofa e
semióloga brasileira Lúcia Santaella lembra que toda descrição é, antes
de tudo, um processo de interpretação — e que não há acesso “puro” ao real,
apenas múltiplas mediações.
Essa
constatação não é apenas teórica; ela se revela nos gestos mais simples do
cotidiano. Quando alguém pergunta como foi o seu dia, você seleciona episódios,
omite detalhes, realça outros. Ao narrar um acidente, um jogo ou um encontro,
sua escolha de palavras já organiza os fatos numa narrativa coerente — mesmo
que a realidade vivida tenha sido confusa e fragmentada.
A
ciência, que busca rigor, também depende dessas descrições. Um relatório
meteorológico não diz “o tempo está feio”, mas apresenta dados numéricos sobre
pressão, umidade e temperatura. Ainda assim, são categorias humanas, mediadas
por instrumentos, que transformam fenômenos em linguagem técnica. O mesmo vale
para a arte: um pintor não copia a paisagem, mas cria uma descrição visual de
como a percebeu — e às vezes essa versão “irreal” é a que mais nos comove.
Santaella
argumentaria que a consciência dessa mediação é libertadora. Em vez de
buscarmos a “descrição definitiva” do mundo, podemos aceitar que toda descrição
é apenas uma entre muitas possíveis. Isso não diminui seu valor; ao contrário,
abre espaço para que várias perspectivas convivam, compondo um mosaico mais
rico.
O
risco surge quando confundimos descrição com realidade. A frase “o bairro é
perigoso” pode se tornar mais poderosa que a experiência real de andar por suas
ruas. Uma estatística sobre desemprego pode parecer mais “verdadeira” que a
vida concreta das pessoas que ela representa. É nesse ponto que as descrições
deixam de ser guias e passam a ser prisões.
Talvez
a filosofia das descrições da realidade nos convide a algo simples e difícil ao
mesmo tempo: falar sobre o mundo sabendo que estamos apenas esculpindo uma de
suas faces — e ouvir o outro como quem olha para um ângulo novo da mesma
montanha. Porque, no fim, a realidade inteira não cabe numa frase; mas cada
frase pode iluminar um pedaço dela que, sem ela, permaneceria invisível.
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