Hoje acordei com uma sensação estranha, levantei e fui direto para o café, com a xicara na mão comecei a pensar que há momentos em que o mundo parece se mostrar de forma deslocada, como se os objetos, as pessoas e até nós mesmos estivessem levemente fora do lugar — não no sentido físico, mas na textura mesma da experiência. É o instante em que o familiar se revela estranho, e o cotidiano, que deveria ser transparente, torna-se opaco. Essa sensação, que poderíamos chamar de “estranha fenomenologia”, é menos um tema acadêmico e mais uma vivência íntima: o copo que você usa todos os dias parece, subitamente, pertencer a outra época; a rua por onde você passa há anos adquire uma luz diferente, quase ameaçadora; um rosto amigo parece carregar um enigma que antes não estava lá.
Husserl,
ao propor o “retorno às coisas mesmas”, buscava suspender julgamentos e
mergulhar na pura experiência. Mas essa pureza, quando levada ao extremo, pode
se tornar inquietante. Ao ver as coisas sem a proteção dos hábitos
interpretativos, elas nos encaram de volta como algo radicalmente outro. Merleau-Ponty
falava dessa estranheza como parte inevitável da percepção — o mundo não é um
objeto pronto, mas algo que se co-constroi com nosso olhar e nossa
corporeidade. No entanto, a “estranha fenomenologia” não se limita a revelar
que o mundo é aberto; ela o apresenta como se fosse parcialmente intraduzível,
como se houvesse uma camada que jamais será incorporada à lógica diária.
No
cinema, Andrei Tarkóvski explorava essa sensação de deslocamento: um
copo sobre uma mesa, uma poça refletindo o céu, um movimento lento de vento nas
árvores — simples, mas carregados de um peso ontológico que nos desconcerta. É
a experiência fenomenológica que, em vez de trazer clareza, traz espanto. Heidegger
diria que nesses momentos vivemos uma suspensão do “ser-no-mundo”
automático: a ferramenta deixa de funcionar, a familiaridade se quebra, e vemos
o ser das coisas em seu “ser-assim” — mas não como iluminação, e sim como um
lampejo inquietante.
Talvez
a “estranha fenomenologia” seja uma espécie de despertar ao contrário:
em vez de nos dar consciência plena, ela nos devolve ao mistério. O mundo não
se explica; ele apenas insiste em existir diante de nós, e nós, nesse instante,
deixamos de ser donos do sentido.
Se
aceitarmos essa sensação em vez de tentar dissolvê-la, ela pode nos ensinar uma
humildade radical: o real não nos pertence, nem está ali apenas para ser
decifrado. Há uma dimensão em que as coisas são, simplesmente, inassimiláveis —
e é nessa fratura que talvez habite a beleza mais profunda da experiência.
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