Um ensaio filosófico breve, mas sem panos quentes
Há
dias em que basta andar pela rua, abrir um aplicativo ou participar de uma
reunião para sentir um certo desespero: como chegamos até aqui com tanto
conhecimento acumulado e, ao mesmo tempo, tanta burrice em circulação? Essa
contradição lateja no cotidiano. Parecemos capazes de construir foguetes, mas
incapazes de atravessar uma conversa sem mal-entendidos grotescos, preconceitos
rasos e decisões autodestrutivas. Há algo de estrutural na imbecilidade humana
— e talvez ela seja menos exceção e mais sintoma.
Nietzsche
já dava sinais dessa inquietação. Para ele, “o homem é o animal que se engana”,
não só por ignorância, mas porque quer se enganar. A ilusão conforta mais do
que a verdade. A burrice, nesse caso, não seria ausência de inteligência, mas
uma inteligência desviada, posta a serviço do autoengano e da manutenção do
ego. O idiota, então, é aquele que sabe, mas prefere não saber.
Cornelius
Castoriadis vai além ao tratar da heteronomia,
ou seja, da tendência humana de deixar que os outros — instituições, mitos,
algoritmos — pensem por nós. A imbecilidade moderna se traveste de “opinião
própria”, quando na verdade é apenas repetição maquinal de fórmulas prontas.
Não é falta de acesso à informação — é a preguiça de pensar com autonomia, de
elaborar, de duvidar.
Essa
é a imbecilidade voluntária: um tipo de recusa ativa da complexidade. Um
cansaço intelectual travestido de convicção. Guy Debord, ao falar da
sociedade do espetáculo, já denunciava esse fenômeno: o mundo vira imagem,
consumo e slogans, e pensar se torna um esforço inútil. A burrice, nesse
cenário, deixa de ser falha e se torna escolha. E o mais assustador é que ela
vem acompanhada de uma sensação de triunfo moral — como se o simplismo fosse
virtude.
Mais
grave ainda é a instrumentalização política da imbecilidade. Líderes e
grupos de poder já entenderam há tempos que não precisam educar o povo, apenas
alimentá-lo com versões digeríveis da realidade. Hannah Arendt, ao
estudar os regimes totalitários, mostrou como a banalidade do mal não depende
de monstros brilhantes, mas de engrenagens humanas medíocres, obedientes, que
não pensam. A imbecilidade politizada se transforma em fervor, em doutrina, em
patriotismo cego — e aí ela mata, persegue, elege.
Não
se trata aqui de um desprezo elitista pela massa, mas de um alerta ético: a
imbecilidade humana não é apenas cômica, ela é perigosa. Porque o imbecil,
quando protegido por números, vira multidão. E multidões imbecis fazem história
— ou melhor, tragédia.
Como
resistir? Talvez retomando a humildade socrática: saber que não sabemos,
duvidar com coragem e reaprender a pensar com os outros, e não apenas contra
eles. Porque se a imbecilidade é uma tendência coletiva, a lucidez também pode
ser. Mas exige trabalho. E, infelizmente, nem todo mundo está disposto.
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