O paradoxo da liberdade consentida
É
um enigma inquietante da condição humana: por que tantos se submetem sem coação
física, entregando sua autonomia a líderes, sistemas ou ideias que os limitam?
A “servidão voluntária” parece uma contradição — como pode a escravidão ser uma
escolha? Étienne de La Boétie, ainda no século XVI, enxergou com clareza
esse fenômeno. Em seu Discurso da Servidão Voluntária, ele observa que o
poder de um tirano depende apenas da obediência de seus súditos: “Se nada lhes
for dado, se não forem obedecidos, sem combate, sem violência, ele fica nu e
despido, e se dissolve.”
A
inovação desse pensamento repousa no deslocamento da crítica: o problema não
está só no tirano, mas na disposição coletiva de se submeter. La Boétie
antecipa o que hoje vemos em tantas formas de dominação consentida — do culto
às celebridades ao consumismo, das bolhas ideológicas à dependência de
plataformas digitais. É a liberdade transformada em performance, onde
escolhemos a submissão para evitar o desconforto da responsabilidade de decidir
por nós mesmos.
Espiritualmente,
esse paradoxo já havia sido intuído por São Francisco de Assis, quando
dizia que “o homem só é verdadeiramente livre quando nada mais possui”. A
servidão voluntária nasce, muitas vezes, do medo de perder — prestígio,
conforto, identidade. Preferimos acorrentar-nos a garantias frágeis do que
enfrentar o vazio libertador da escolha.
Reverter
a servidão voluntária não exige revoluções externas, mas um despertar interno:
perceber que obedecer é, antes de tudo, um ato — e, portanto, uma escolha. Como
propôs La Boétie, basta “não querer mais” para que o poder opressivo se
esvazie.
Essa
é a subversão mais radical: descobrir que a liberdade não se conquista, mas se
recusa a servidão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário