O Ato de Não Dizer
Segurar
a língua é mais do que um gesto físico; é um exercício de autocontrole, cálculo
e, por vezes, sobrevivência. A decisão de não falar, quando se tem algo pronto
na boca, pode ser tanto um sinal de sabedoria quanto um peso que corrói por
dentro.
O
filósofo brasileiro Rubem Alves, que via a linguagem como ponte e também
como abismo, lembrava que o silêncio pode ser mais revelador que qualquer
palavra. Para ele, a fala precipitada é como uma flecha lançada: impossível de
recolher. Segurar a língua, então, é conter essa flecha antes que ela parta,
seja para evitar ferir alguém, seja para evitar ferir a si mesmo.
No
cotidiano, a prática é onipresente. No trabalho, diante de uma decisão
equivocada do chefe, a língua coça, mas a prudência segura. Em uma discussão de
casal, há frases prontas para incendiar a situação, mas que ficam presas entre
os dentes. Na fila do banco, diante de um comentário grosseiro, a vontade é
retrucar, mas o corpo inteiro decide que é melhor não.
Mas
o ato não é neutro. Guardar a palavra pode proteger, mas também pode sufocar.
Há quem segure a língua tantas vezes que, aos poucos, vai apagando a própria
voz — transformando-se num espectador da própria vida. E há quem não segure
nunca, falando como se cada instante fosse uma última chance, acumulando
inimigos e desgastes.
Rubem
Alves sugeriria que a sabedoria está em saber quando o silêncio é um abrigo e
quando é uma prisão. Segurar a língua, nesses termos, não é calar-se por medo,
mas por escolha consciente: compreender que o tempo certo da palavra não é
sempre o tempo da emoção.
Talvez
seja esse o paradoxo: falar exige coragem, mas calar exige uma coragem ainda
maior — a de confiar que nem toda verdade precisa ser dita para ser vivida.
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