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sábado, 27 de dezembro de 2025

Objetivar 2026

Último Sábado do ano...

Há anos que começam antes do calendário. Eles chegam como um incômodo discreto, uma sensação de que algo precisa ganhar forma. 2026 é um desses. Não porque saibamos o que ele trará, mas porque já estamos cansados de viver no modo provisório — sempre “ajustando”, “tentando”, “vendo no que dá”. Objetivar 2026 não é fazer uma lista de metas; é um gesto filosófico mais radical: transformar o tempo futuro em algo que nos olha de volta.

Normalmente tratamos o futuro como névoa. Dizemos: ano que vem eu vejo isso, mais pra frente resolvo. O problema é que o tempo, quando não é objetivado, se torna apenas passagem. Ele nos atravessa, mas não nos encontra.

A filosofia já desconfiava disso. Heidegger dizia que o ser humano vive projetado — sempre lançado adiante —, mas quase nunca assume conscientemente esse lançamento. Vivemos em direção ao futuro, mas sem dar a ele contornos. O resultado é uma existência reativa: respondemos ao que aparece, raramente chamamos algo à existência.

Objetivar 2026 começa aqui: deixar de tratar o ano como um recipiente vazio e passar a vê-lo como uma obra em construção.

Há um mal-entendido perigoso: confundir objetivar com controlar. Controlar é querer dominar o que não depende de nós; objetivar é dar forma ao que pode ser chamado.

Quando objetivamos um ano, não decidimos tudo o que vai acontecer — isso seria delírio. Decidimos o tipo de relação que teremos com o que acontecer.

É a diferença entre dizer:

“Espero que 2026 seja melhor”

e dizer:

“Em 2026, certas coisas não terão mais lugar em mim.”

Essa segunda frase não controla o mundo, mas redesenha o sujeito.

Um ano objetivado funciona como espelho. Ele devolve perguntas incômodas:

  • Que hábitos ainda tolero por covardia?
  • Que relações mantenho por inércia?
  • Que versão de mim continuo adiando?

Nesse sentido, 2026 não é um número, mas um critério. Um filtro silencioso que começa a operar antes mesmo de janeiro. Algumas escolhas deixam de fazer sentido. Certas urgências se revelam falsas. O ano futuro passa a julgar o presente.

Nietzsche diria que isso é uma forma de afirmação da vida: viver como se cada decisão estivesse à altura do tempo que queremos habitar.

Vivemos soterrados por estímulos, opiniões, demandas e expectativas alheias. Objetivar um ano é um gesto de economia existencial. Não adicionar mais coisas, mas retirar.

Talvez 2026 não precise de novos projetos, mas de menos dispersão.

Menos promessas vagas.

Menos versões de si mesmo coexistindo em conflito.

Menos tolerância ao que drena energia sem sentido.

O ano objetivado não é expansivo; é preciso.

Há anos que passam e anos que ficam. Os que ficam são aqueles que tiveram densidade simbólica. Foram nomeados, desejados, temidos, enfrentados.

Objetivar 2026 é dar espessura ao tempo antes que ele passe. É dizer: este ano não será apenas vivido, será sustentado. Mesmo com falhas. Mesmo com desvios. Mesmo com cansaço.

No fim, talvez o gesto mais inovador não seja prever o futuro, mas torná-lo responsável diante de nós. Quando fazemos isso, algo curioso acontece: o futuro deixa de ser ameaça e passa a ser convocação.

E 2026, então, já começou.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

O Segredo do Filósofo

Pensar pode ser libertador!

Muitas vezes a gente se aproxima da filosofia com uma expectativa silenciosa: que ela nos traga respostas. Respostas para o caos, para as dúvidas existenciais, para o amor que não deu certo, para a angústia de segunda-feira. Mas quem se aventura de verdade nesse território percebe logo um segredo antigo — a filosofia não responde, ela liberta.

Parece estranho à primeira vista. Como assim libertar sem responder? Mas pense num momento da sua vida em que tudo parecia engessado: a rotina, as ideias, as opiniões ao redor. Talvez fosse o trabalho, a família, ou até você mesmo, preso em uma narrativa de “tem que ser assim”. E aí, do nada, surge uma pergunta incômoda — por que tem que ser assim?

Essa pergunta, simples e perigosa, é puro combustível filosófico.

No cotidiano, somos treinados a seguir fórmulas. Frases como “o importante é ser feliz”, “tem que trabalhar duro” ou “todo mundo faz isso” passam como verdades absolutas. Mas a filosofia vem e pergunta: o que é ser feliz? Por que o trabalho é um valor? Todo mundo quem? E quando você se permite viver com essas perguntas, não se torna mais confuso — se torna mais leve. Mais livre.

Essa liberdade não significa sair por aí rompendo com tudo. Significa escolher conscientemente os vínculos que valem a pena. Significa, por exemplo, não aceitar que o amor tem que doer, que o sucesso tem que esgotar, que o corpo tem que caber em algum padrão. A filosofia nos dá ferramentas para pensar além do óbvio — e isso é libertação.

O filósofo francês Michel Foucault dizia que a filosofia não é um saber de professor, mas um exercício espiritual, uma forma de cuidar de si. Quando a gente pensa por conta própria, mesmo que erre, mesmo que vacile, está cultivando essa liberdade interior: a de não viver sob pensamento alheio.

Isso se aplica nas pequenas decisões também. Escolher onde morar, com quem conviver, como usar o tempo — tudo isso vira exercício filosófico quando é atravessado por reflexão e não por automatismo. O mundo lá fora adora que a gente funcione no piloto automático. Mas o pensamento crítico é uma forma de resistência.

E aqui está o segredo: a filosofia não serve para resolver a vida — ela serve para abrir espaço dentro da vida. Espaço para respirar, para escolher, para perceber que o que parecia “natural” talvez seja só costume. E que viver pode ser mais leve, mais profundo, mais verdadeiro, quando a gente pensa com autonomia.

No fim, não é sobre decorar frases de Sócrates ou de Simone de Beauvoir. É sobre recuperar o direito de pensar com a própria cabeça. E isso, é o segredo, é como os filósofos sempre souberam, é uma forma poderosa de se libertar.