Tem dias em que a gente sente tudo e entende nada. Outros em que não sentimos nada — e entendemos tudo. Há momentos em que a vida parece um grande ruído, uma pilha de tarefas, afetos, promessas e medos, e a única coisa que queremos é desligar o mundo. Mas e se o sentido da vida estiver justamente aí — no nada de tudo?
Vivemos
tempos de excesso: de informação, de opinião, de comparação, de desejo. A cada
passo, a sensação de que estamos perdendo algo. A cada silêncio, o incômodo da
ausência de estímulo. No entanto, é no vazio que algo essencial começa a se
formar. O "nada" não é ausência, mas espaço fértil.
O
filósofo Martin Heidegger abordou essa questão ao refletir sobre o nada
como aquilo que nos revela o ser. Para ele, é no confronto com o nada — diante
da angústia, por exemplo — que nos damos conta da existência como tal. Não da
existência de uma coisa ou outra, mas do próprio existir. Em seu ensaio “O que
é metafísica?”, ele escreve: “O nada revela-se com a angústia, mas não como um
ente. O nada é a completa nulidade de todos os entes.”
Em
outras palavras, é quando tudo perde o brilho, o sentido ou a direção que
podemos enxergar o que realmente está lá — aquilo que permanece quando tudo vai
embora. Às vezes é uma lembrança, uma respiração profunda, uma xícara de café
esquecida ainda morna na borda da pia.
O
nada de tudo, então, não é derrota, nem abandono. É o ponto de virada. É quando
o corpo já não finge, a alma se recusa a obedecer, e surge a possibilidade de
começar — sem o peso do que era, sem o medo do que vem.
Talvez
a verdadeira liberdade não seja ter tudo, mas poder perder tudo e ainda assim
não se perder de si.

