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domingo, 10 de agosto de 2025

Veleidades Insurgentes


Há vontades que não chegam a ser projetos. Elas nascem, inflamam, mas não amadurecem — como fagulhas que não se tornam incêndio. São desejos provisórios, caprichos de pensamento que se erguem contra o estado das coisas, mas sem compromisso com o fôlego longo da mudança. Chamo isso de veleidades insurgentes: pequenas rebeliões íntimas, muitas vezes mais teatrais do que práticas, mas que mesmo assim revelam uma fratura no consenso cotidiano.

No dia a dia, elas aparecem quando alguém promete “virar a mesa” no trabalho, mas ao fim do expediente já está rindo com os mesmos colegas que critica. Ou quando um morador indignado com a prefeitura escreve um manifesto nas redes sociais, mas não comparece à reunião do bairro. São insurgências que se anunciam mais pelo gesto do que pelo resultado — talvez como ensaio, talvez como alívio.

O filósofo francês Albert Camus, ao falar do homem revoltado, lembrava que toda revolta nasce de um “não” — um limite que não se aceita ultrapassar. No entanto, o “não” das veleidades insurgentes é volúvel: não se firma como postura, mas como lampejo. Ainda assim, esse lampejo é significativo. Ele marca a consciência de que algo está errado, mesmo que não haja energia ou estratégia para corrigir.

É nesse ponto que Paulo Freire nos oferece um olhar revelador: para ele, todo ato de conscientização começa com uma percepção incômoda, mesmo que ainda confusa ou tímida. As veleidades insurgentes, assim, podem ser lidas como os primeiros sinais de uma consciência em gestação. Não são ainda praxis transformadora, mas contêm a matéria-prima — o desconforto, a pergunta, a suspeita — que, se alimentada, pode se tornar ação crítica e libertadora. Onde o senso comum vê apenas desistência ou imaturidade, Freire veria a oportunidade de diálogo, de estímulo para que o sujeito passe do impulso à reflexão e, desta, à ação.

A força dessas veleidades não está em mudar o mundo diretamente, mas em semear pequenas fissuras na aceitação do status quo. Uma adolescente que pinta frases de protesto no caderno escolar, um funcionário que muda o código do sistema apenas para irritar o chefe, um artista que esconde críticas políticas em suas obras — todos esses gestos, mesmo efêmeros, indicam que a máquina social nunca é totalmente lubrificada. Há sempre ruídos, pequenas insurgências sem bandeira que podem, um dia, se encontrar e formar algo maior.

Talvez seja por isso que, no plano simbólico, elas não sejam desprezíveis. As veleidades insurgentes nos lembram que a obediência absoluta é impossível e que até as vontades mais caprichosas carregam o germe da transformação — mesmo que, na maioria das vezes, terminem apenas como anedotas pessoais. Afinal, toda grande revolução começou um dia como um pensamento improvável, quase ridículo, que poderia muito bem ter sido esquecido.

Se Camus via na revolta uma exigência de coerência, podemos ver nas veleidades insurgentes a pré-história dessa coerência: o instante em que se descobre que o mundo pode — e talvez deva — ser diferente, ainda que o impulso se perca no vento.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Celular nas Escolas

O dilema sobre o uso de celulares nas escolas é mais profundo do que parece. À primeira vista, pode ser reduzido a uma questão de ordem prática: proibir ou liberar? No entanto, ele toca em questões filosóficas fundamentais sobre o papel da tecnologia, a educação e a formação do ser humano. Ao discutir o tema, devemos perguntar não apenas “o que é mais eficiente?”, mas também “o que é mais humano?”.

O Celular como Ferramenta ou Distração

O filósofo Martin Heidegger nos alerta que a tecnologia não é apenas um conjunto de ferramentas, mas uma forma de revelar o mundo. Um celular na mão de um estudante não é apenas um aparelho; é uma janela para o mundo digital, um espaço que compete diretamente com o ambiente físico da sala de aula. Enquanto o professor explica um conceito, o celular pode sussurrar convites mais sedutores: vídeos, mensagens, memes.

Libertar o uso do celular sem critérios pode transformar a sala de aula em um espaço de dispersão. Contudo, proibi-lo completamente pode ser uma negação da realidade contemporânea. Como equilibrar? Talvez a resposta resida naquilo que Paulo Freire chamaria de educação dialógica: não impor regras de cima para baixo, mas envolver os estudantes em uma discussão sobre o uso ético e responsável da tecnologia.

O Paradoxo da Liberdade

Liberar o uso do celular é um gesto de confiança e autonomia, mas será que os jovens estão preparados para exercer essa liberdade? Isaiah Berlin nos lembra que existem duas concepções de liberdade: a positiva (autonomia para tomar decisões conscientes) e a negativa (ausência de restrições externas). Liberar o celular sem ensinar o estudante a usá-lo conscientemente é cair na armadilha da liberdade negativa: o aparelho deixa de ser um meio para se tornar um fim.

A liberdade verdadeira, nesse contexto, exige educação. Os jovens precisam entender que o celular é tanto um potencializador do aprendizado quanto uma armadilha para a distração. Ensinar isso, entretanto, é um desafio que recai sobre os professores, que já enfrentam sobrecargas em suas funções.

A Educação e o Tempo

Outro aspecto fundamental é a relação entre o uso do celular e o tempo. O filósofo Byung-Chul Han critica nossa era pela fragmentação da atenção e pela constante aceleração. O celular, com suas notificações incessantes, insere os jovens em um ritmo que pode ser antagônico à essência da educação, que requer paciência, reflexão e atenção plena.

Proibir o celular na sala de aula pode ser uma tentativa de proteger os estudantes desse tempo fragmentado. Por outro lado, integrar o celular como ferramenta pedagógica — aplicativos de aprendizado, pesquisas guiadas, aulas interativas — pode ensinar os jovens a reconciliar tecnologia e atenção, formando cidadãos mais conscientes do uso do tempo.

O Caminho do Meio

A solução para o dilema talvez esteja em um equilíbrio entre proibição e liberdade. Inspirando-se na ética aristotélica, podemos buscar a virtude do meio-termo: não o uso irrestrito, nem a proibição total, mas um uso mediado pela reflexão e pelo contexto. O celular poderia ser permitido em momentos específicos, sob regras claras e com objetivos pedagógicos bem definidos.

Além disso, é essencial promover o diálogo entre professores, estudantes e famílias. A criação de contratos sociais sobre o uso do celular — como acordos para desligá-lo em momentos cruciais ou limitar as notificações — pode reforçar a responsabilidade coletiva.

O debate sobre celulares nas escolas não deve ser visto apenas como uma questão prática, mas como um convite para refletirmos sobre os valores que desejamos cultivar na educação. Ao decidir se liberamos ou não o celular, estamos, na verdade, decidindo que tipo de seres humanos queremos formar: consumidores passivos da tecnologia ou cidadãos críticos e autônomos?

A resposta, portanto, não está em uma proibição ou liberação simplista, mas em um projeto educacional que integre tecnologia, ética e reflexão. Afinal, como diria Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. Que o celular, então, seja uma possibilidade, e não um obstáculo.